É por não saber quem és, que te escrevo com todo o coração que posso ter. Nunca me amaste por mais que a luta fosse essa, e nem os dias te ajudaram a enfiar-te num vestido de seda para me encantar ao final do dia. Não pedi as horas nem o afinco dos ponteiros, só pedi a sobriedade dum momento a sós contigo que o sorriso e o riso me fizessem a companhia dos teus lábios cor-de-mel, invejando qualquer lírica mais ou menos pessoal. Desististe mesmo antes de vir a saber, e não cheguei a olhar-te nesses olhos de um verde profundo que confundia os meus no receio de poder encontrá-los contigo. Perdi demasiado a condescendência nos sítios onde esperei e sobretudo tornei-me menos humano, menos natural, que às tantas apenas o encontrar-te era tudo o que precisava. Era, que nem os tempos verbais das palavras me ajudam a desvendar o amor secreto que algum dia irei encontrar, estendida no mesmo leito que eu, procurando por mim o que tanto procurei por ela. Era quase favor com que olhava para o chão, se este tivesse as pistas para as respostas que me entupiam o pensamento, pesado e assombroso num perfeito estado de embolía emocional. Peço-te, que debaixo desta chuva já não me encontrei mais. Peço-te que faças sentido a tudo o que imaginei sobre as leis do universo e as teorias infindáveis sobre o espírito humano. Peço-te que me devolvas o que te dei, ou pelo menos faças uso disso. Peço-te, se a história não acaba aqui, que o amor é uma coisa onde mora tudo aquilo que acreditas sobre ele. Não me faças ser mendigo do meu desgosto, nem pobre do que não tenho. E lembra-te que aquilo que sou foi humildade do que soube construir com as mãos em brasa e tudo o resto foram diplomas dos que acharam que fiz diferente deste ou daquele. Quero ser diferente sim, mas não desigual.
Se apareceres, diz-me apenas quem és.
São subtis todas as ondas que abarcam na areia onde me encontro. Gritam, esfolam-se forazmente em rebentações de respeito que preenchem de espuma toda por essa vista inalcançável de praia do qual observo algo mais que o normal de se ver. Porém o meu pensamento não tem mar, nem sol nem praia à mistura. É apenas uma pequena noção de todas as minúsculas coisas que me incomodam a balança metafísica num equilíbrio natural incapaz de torcer os braços às lutas que as horas perdem consigo. Penso em mim, em ti, em nós e nos outros - cada um tem a sua justiça à perna pronto a justificar em mim todas as acções que cometem - e faz sentido que eu não viva sem ti, que a vida não tenha um "nós" e que eles não sejam parte integrante de qualquer tempo que se passe. Tudo é possível, tudo é preciso. E justifico o amor que também existe, o delírio de um atracção imortal, de um desejo infinito. Justifico até a vontade acertada de correr atrás, mesmo sujeito a cansar o olhar de tanto organizar cada ideia sucinta do que és na verdade para mim. Mas não justifico o que quero, o que me atrai ou satisfaz: não se explica, sente-se. E aos outros cabem os outros amores que guardo para recordar a cada segundo que posso ter, e não sou de modas nem contra-natura, e consigo imaginar-me a discursar para cada um deles na tentativa de explicar o que sinto (não duvido que conseguisse), talvez porque o delírio passa a ser compaixão e a atracção um ombro para as desavenças, e uma lágrima para o conforto. Não dispenso o melhor que posso ter, e não darei a ninguém a vida que ainda quero viver.
Se ficas, espreito-te de esgueira,
libertar um sentimento, é chover ao sol,
é não sentir essa brasa ensonada,
é deixar de pensar, cair e ficar mole.
Em cada batimento, justifico cada momento,
deixar acontecer, fluir o sentimento,
é não ter alma, um sobejo,
arrancar-te docemente um beijo.
E tudo é tão longe, por vezes,
e uso os números para te contar,
só és quem eu gosto de sentir,
tão e só simplesmente conseguir fazer-te sorrir.
Fui-me embora no comboio mais próximo para onde fosse. Queria fugir daqui, da rotina e das saudades, deste fantasma omnipresente da vaga distância por um fio de entre as coisas. Queria desaparecer num momento mais sóbrio e encontrar-me num caminho certo, longe da loucura emocional que experimento por vezes usar. É tudo tão básico como difícil de acontecer, de entender num levitar constante desse pensamento mais fundo, mais torto para os mais entendidos. É tudo o que aprendemos a conhecer de perto, numa ilusão estampado na ansiedade do momento que ainda por cima não dá tempo de existir, e nós caímos no fundo, e no fundo nenhuma emergência emerge para nos salvar. Somos nós a melhor companhia da escuridão, e nenhum sonho é tão claro como subir e voar, que arriscar e conseguir. Mas o amor é o que fica, que nenhum sofrimento é tão grande como o sentimento de partilhar consigo a mulher da sua vida.
São olhos de quem vê, que fazem muita vez os desejos de quem é. E de ver-te bailar em palavras dóceis, e num rasgado sorriso, que me perco para te ver passar. Quando a chuva cai num desespero profundo, quando o vento sopra num assustado uivo nesses corredores vazios, chego a imaginar-me noutros tempos, noutras eras, quando me contavas as histórias que vivias ou que passavas - sim, porque viver ou passar nem sempre coexistem no mesmo espaço ao mesmo tempo - mas falta-me teclas ao piano para te embalar quando encostas a cabeça ao meu ombro. Ninguém faz música com os dedos e as palavras também se gastam com as rotinas, com os limites de qualquer simpatia ou simplesmente pelas vagas circunstâncias de que tudo acontece em pouco tempo e nem sempre chega para assentar pedra nem tijolo que as tempestades levam tudo, como nas tuas palavras de pura rejeição de baldes de gelo pelas costas abaixo. Os ponteiros também falecem em segundos de pura ironia do destino e se fosse a acreditar que não existe mais vida para além da que levamos, então o destino era fantasia para quem luta por alguma coisa. E nunca imaginaste que te pudesse sobrevoar constantemente o coração, pois não? Fui perdulário por querer demais, fui um completo falhado, e chego a pensar que tudo não passa de um cair e levantar constante. Mas não digam o que se sabe, o que não se quer ou que não vale a pena. C´est lá vie, meus caros!
Não penso que não existo, e corro para sentir,
acendo velas sem luz e escondo-me no sono para dormir,
é tudo tão simples, onde nada acontece,
é o passar do dia e depois anoitece.
Guardo nessa tela fotográfica,
os sorrisos que tu me deste,
não sei que tempo me chamou,
o que fomos ou disseste.
E é amar-te profundamente,
é ser como um louco e não ver em mais nada,
a arte dos perdidos é não saber minimamente,
não saber fazer da pessoa que se quer, amada.
Perdi-me muitas vezes nessas luas,
em lutas de tabernas em jogos de azar,
vi-me muitas vezes pregado às rochas,
abraçando o vazio...e amando o mar.
O que nos marca profundamente, não deixa espaço para mais nada. E são coisas que ninguém marra, que ninguém estuda ou simplesmente dispõe em slides. Existem momentos que só a vida, a experiência e a sensatez ajudam a perceber de perto, mais nada importa se o momento é efémero e de alguma maneira inteiro e eterno. Chego a pousar os olhos nas fotografias, em tudo o que pude ver em cada poro teu - e não é que transpiravas doçura e simplicidade em cada segundo que passava? - admiro-me como me surpreendo com as belas expressões da natureza. Hoje apetece-me pegar na guitarra e tocar para ti, cantar-te poesias como flores saídas da alma, numa voz que me dizes encantar-te, suster-te num sono profundo e silencioso. Quero-te embalar e levar-te para uma outra geração onde as ligações só se fazem entre mim e tu. É o pensamento que levo nesses dias de mãos largas, onde tudo é e nada acontece. Hoje quero estar sentado nas rochas junto ao mar, quero cheirar esse sal de olhos fechados e viajar por cima de qualquer sonho. Aos que me ouvem, suspiro, pontapeio uma pedra para o rio e mando uma gargalhada para o ar.
Se me vejo caminhar na eloquência de um sorriso aberto, desperta-me a melhor montra para a vida. É dessa elegância no passo, de um brilho do sapato, que me descoso desses traços curvilíneos que me satisfazem o melhor andar. Vagueio, eliminando nos poros toda essa tensão por cima dos ombros, de mãos nos bolsos e óculos no disfarce perfeito de uma fotografia de quarto. Chamem-me, sobretudo, O amigo. E descansem as palavras num repouso infinito de um céu ora solarengo, ora estrelado, e escusam de gastar a corda vocal que vos encanta - se encanta, eu gosto e corro com prazer disso. Chamem-me, vá lá, o que se gosta de ouvir se for verdadeiro. E deixem de lado as mordomias e os receios de uma resposta desinteressante. O importante por vezes é deitado à rua, e na rua ninguém gosta do frio, e é decente e a decência paga-se com a consciência e esta com o corpo numa vida de luta. Para quê complicar, falar ou satisfazer. A verdade. A loucura. O desprendimento dos braços ao abraço desconhecido. A cabeça que não se usa tantas vezes não pontapeia bolas como os pés, mas faz de mim e ti o casal perfeito, o beijo perfeito ou o momento perfeito. O coração é que se engana e não deixa manter de pé todas as definições exactas ou pré-definidas do que queremos que fique em nós. Chamem-me de saudade, que assim sei que não saem da minha vida. E tratei-me por "tu" que há sorrisos que não espantam os pássaros nem assustam almas depenadas. É o vento que me traz o que tanto me custa deixar em paz, e porquê deixar? Porquê não ser? Se me perguntam a voz de quem falo, pensem que se calhar era a voz que falta a muita gente.
Porque volta ao mesmo lugar que deixei todas as recordações que foram minhas. Quando o vento me dizia feliz para não ir por maus caminhos, foi nesse pecado súbito, nessa frieza-sentimento que deixei por terra para marcar o corpo de uma nódoa difícil de arrancar. Foram as mãos que se agarraram a esse coração sem destino, sem dono, sem nada. Eras ausente de qualquer dor, qualquer fim ou qualquer emoção, mas eras difícil nas palavras - as que tanto lutei para as ter de ti. Na volta tudo é igual, real e menosprezado, e os homens e mulheres que se empurram pela calada numa noite clara de chuva e lama, de estrelas e gritos no eco do desespero. É bom virar a força do avesso e olharmos um bocadinho mais: o que faz falta? o que se comete de mal? o que se tenta dificilmente? É a vida que se leva até um bom livro se fechar. Não se acredita num obstáculo que seja para se acreditar. Não se faz o suficiente, nunca, para se fazer acontecer. E quando está tudo pronto, já não há o tempo da oportunidade, do direito ou da ribalta, e é nesse rio de encantos que nos servem o desabafo que também ele se farta de nós. Não lhe chamo destino e muito menos um tilintar veloz dos ponteiros do relógio. Talvez tivesse que acontecer, tivesse de ser, tivesse de se encontrar a resposta assim. Que nos vale um baloiço a quem nem o vento sabe baloiçar? Que nos vale a música se não há arte para a fazer tocar? Que nos vale o conhecimento se apenas usamos a ignorância para a estupidez? Que nos vale amar se o tempo nos teima em lutar contra o amor. Mas quem luta contra o amor? É um sentimento, é produto da consciência e não tem mapas, não é gerido por dinheiro nem por jogos sujos. O amor é uma pedra fria mas a única diferença é ser a mais bonita do mundo. E quem não guarda simplesmente atira-a para longe, longe onde fica a desilusão de quem não vive oco, frio ou vazio.
Escrevo sem a melancolia do costume, e contraio-me na cadeira nesse cansaço de ler barbaridades vindas da tua boca dedilhadas num compasso perfeito sem pontuação e, excepção à regra, com um viciado ponto final. Li tudo numa assentada e fez-me lembrar esse teu amigo de cabeceira Saramago do qual o apelidavas de amante para me picar. E foram as letras que me traíram, mas quem as percebe hoje em dia também? Tudo depende de conjuntos solstícios num raio profundo sem pingo algum de decência - e olha que a decência era a tua tese de mestrado desse teu curso merdoso que engendraste a três horas de te candidatares há uns anos. E tudo em ti era suave e funcionava a energia solar, que ao sol fazias os maiores malabarismos da alegria e da retenção da ansiedade que te consumiu a vida inteira. Mas as palavras cortaram-te a respiração não foi? Chamei-as de inteligência artificial que não consigo apalpar um "A" ou um "B" na rua, que são fruto do pensamento de quem realmente pensou no abecedário. E um dia falarás na decência e vais-me dizer a (tua) conclusão final que foi a mesma que te dei quando disseste que não dava mais: antes o vigor e a falta de vergonha, que duas horas de bicicleta e o mesmo peso. O que te custou mais foi ter lidado bem com esse peso, que chegou a ser consciência - essa sóbria palavra que diz-se, levam-nos a todo o lado - e esvaio-me em esperanças, em forças, em garras afiadas e armas apontadas para a guerra. Corre-me no sangue esse sinal de virtude, e é etiqueta diária das minhas acções, mas era o não viver sozinho que tu mais gostavas de me reconhecer. Para ti era mais fácil matar um morto que um vivo, aliás, preferível. E se nunca te foste embora, que fantasma é este que me atormenta? Que dor é esta que ribomba na minha cabeça?
Existem baloiços que nunca param de esvoaçar num rodopiar constante. E há sítios que não entro com a mania das inseguranças e das imperfeições, e acabo por resolver o problema com uma chave e uma ranhura como porta para o mundo que vivo. E vou vivendo. Só tem havido nos últimos dias dois gestos anímicos possíveis: o arfar numa respiração recortada em pedaços e a chuva de determinações de se bradar aos céus. E ninguém os entende e para esses apenas digo que não têm de o entender, e para os outros até digo mais: são dias que a tempestade colheu. E as noites quando caem chamam-me para me deitar sobre essa penugem por cima das nuvens e dormir o melhor que posso. E os baloiços não morrem, nem o meu baloiçar terrível por esse vento horrível e juro-me ter ouvido segredos penosos trazidos por ele. Mas não se vê e eu sinto, e desconhece-me as faces rosadas de um sorriso porque ou bate-me na cara ou passa ao lado. É como o amor.
Foram linhas que li,
me revi nesse tempo de chuva caída,
escrevo-te nas mesmas linhas,
nessas folhas amarelecidas.
E vou com a ponta dos dedos,
e percorro-te de olhos fechados,
as linhas que li,
os teus compassos.
E é tudo neblina, nevoeiro cerrado,
tudo é simplesmente imperdível,
se fecho as paredes, abro portas,
tudo é inexequível.
Se me lês e me recordas,
não vivo de nem vivo para,
é tudo tão quarto minguante, tão crescente,
que chego a tentar-me por um recorte no céu em vez de uma lua.
Guardo no pó do passado,
todas as pessoas que eu conheci,
foram tantas e tão poucas,
gritos de boca, vozes roucas,
sou eu e os outros,
e sou feliz.
Não temos quem não podemos,
o destino não é atroz, é uma palavra,
desenhei-a na mágoa e na desilusão,
nos cortes nos pulsos e espaços vazios no coração,
sou eu comigo,
e sou feliz.
Se teimamos no aprender,
se a experiência é pobre ou não existe,
o tempo ja nem espera,
a moda nao é estar na berra,
mas só posso ser eu,
e terei de ser feliz.
E tenho um sorriso original,
desenhei-o em definitivo com traço de lápis afiado,
e se o molho numa chuvada,
e se ganho ou perco numa cartada,
sou eu e quem me segue,
e sou feliz.
Mas se quem não gostar ou rejeitar ouvir,
não são preces que lanço, e vou sem aviso,
sou humano e guardo o amor,
guardo a vivência positiva e até mesmo a dor,
mas se sou eu e não quiserem ser os outros,
eu sou feliz.
(porque parado eu não fico.)
A presença muitas vezes faz-nos criar uma vida. Poder olhar, poder recriar uma história e envidraçar as memórias com os olhos que se prendem constantemente nas malhas de qualquer poro teu. Ausentas-te sem que perceba isso, e não mais encontro o chão que pisei para que fosse verdadeiro tudo aquilo que batia por ti. E tu sabes que te espreito com os olhos cansados, doridos de me jogarem às insónias e aos dias sem pensar. É a paixão mortífera que difere as bases de qualquer humanidade que nunca soubeste acatar, e preferiste arrastar o ódio por nada ser e existir tal-e-qual como querias. Achas que tenho medo de chorar? Achas que tenho vergonha de sentir-te? Dei muito mais de mim do que qualquer pessoa imaginaria, e tu sabes que isso equivaleria a ver em ti o rosto de mais ninguém, como se fosse tudo, como se fosse normal. E deixa-me agora estar no meu cantinho, onde nunca tornaste, onde NUNCA quiseste tornar - mas sempre quiseste pedir emprestado para os teus habituais jogos de sedução com os teus meros e enigmáticos amigos - mas não, não permito que voltes a derreter os meus passos com esse teu ódio de criança. Era a presença, era esse ruidoso e belo ouvir dos teus gestos. Não pedi paciência para me aturar.
Adeus.
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