Olhos fechados

E é pensar assim, destravado da realidade, que nos vamos apercebendo de certas coisas. Não tem de ser a boa ou a má, basta sê-lo o que seja e não deixa de o ser. Se tem nome, fomos nós que o demos, senão ganha rótulos e segue pelo mesmo caminho. Se foi noção de interesses, não sabemos, mas existe não é? E fomos nós que lhe pusemos o conceito, antes que viesse o vendedor de qualquer coisa a proibir isso. É preciso, sabem o quê? (Nem eu). E se as virtudes fosse como flores, desbravadas ao vento, a delinquentar com aquela fragrância estonteante, mirabolante, ofegante, sufocante até ao mais mísero neurónio e isso faz-nos felizes, faz-nos viajar por entre as brumas. Ora tentem abrir a vossa mão, com a palma virada para vocês, e verão que entre os dedos os momentos são faseados, as imagens cortadas, como se o tempo fosse também. Agora com a outra tapem os espaços entre os dedos da primeira mão deixado. Não vêem nada, não é? Então...porque tudo fica mais claro com os olhos fechados?

Vive, sim?

Nos quadrados aritméticos da janela,
Na claridade do dia assimétrico,
Batia solarengo os raios convalescentes.
Que no ardor da impaciência,
E na paixão que o absorveu,
Olhava as imagens com uma beleza fugaz,
E de tão Decentes,
Suspirava cada molécula de oxigénio,
E num gesto épico, num descompasso exagerado,
Sentia aquela bomba, aquele cavalgar, aquele zumbido percussor,
E os sons, o vislumbre do momento exacto, o condutor de toda a história universal,
Tudo.
Porque um dia tem de ser vivido com intensidade.

São coisas que saem

Não tenho noção do que sou,
a ínfima parte do que construí,
Sou da terra que me criou,
Vim de longe para aqui.

Escavo sonhos, sem unhas nas mãos,
onde não deixo marcas literais,
E fico na sombra das estrelas,
E tudo fazia sentido diferenciais

E quem se atrevera, de olhar malicioso,
virar com a cabeça o mundo do avesso,
Sentado na ombreira, clareando,
Um chilrear bicudo dos ponteiros, sem retrocesso.

Um nervosismo inquietante,
suga-me a alma de encontro ao pensamento,
E o tempo que não corre, e o tempo que não anda e o tempo que não rasteja,
É tempo perdido aqui estando, sussurrando-me em estremecimento.

Encolho-me, e chego perto,
do teu ouvido latejante,
E que docemente levantas a cabeça,
E sorrio descansado, apraz pelo teu feliz semblante.

A vida que toca a todos

E nestas já embrulhadas letras que te escrevo, vou arremessando contra a parede o desejo de me conter. Este calor que resolveu a altura própria da estação trazer, trouxe também esse ar carregado de quês e argumentos indigestos, do qual me quiseste fazer de parvo por essa vida fora. Um dia disseram-me: "-Tu escreves a verdade da maneira mais crua e bruta" e rejubilei porque consegui mandar a mensagem do "Não me calo" e do "Defenderei a pátria até ao fim" na tentativa que nunca pudesses passar por cima. Essa história que soubeste encantar da Mãe natureza, encantou-me também enquanto não tinha capacidade para pensar nisso, até ao dia que me devolveste a inteligência e a memória que até aí me tinhas tirado. Nem na amada rádio passavam as grandes cantigas da tua vida, nem na postulada e mais que enraizada televisão se mostrava o pendor das grandes imagens que marcavam, e tudo porque sabias que as coisas são assim e não são como nós queremos. Faremos assim: eu faço questão de viver, de lutar e defender a minha própria baliza, mas condiciono-te, não serás mais feliz do que eu.

Se te dizem em toda a parte, viste o que acabei de dizer, Vida.

Não deixem morrer o passado

O passado voltou e riu-se de mim. Não me deixou penetrar em mais nada do que fosse importante, nem nas imagens que tenho faz anos na memória, nem sequer os sons, os paladares, o tacto e o sentido das coisas, NADA. Riu-se de mim como aqueles risos maléficos que tanto nos assustavam nos filmes ainda destoados na televisão. É preciso matar o momento para nos arrependermos dele, e não passamos disto, e continuamos como uns estúpidos quaisquer a errar. Porquê? porque não levamos uma vida normal? (eu sei que não há coisas normais, e o mal é esse mesmo). Acabou-se, pronto, eu sei que as coisas que ficaram, ficaram para lá do horizonte e que não posso voltar a vivê-las com a mesma intensidade, mas não me tirem as pessoas, os sons, os momentos que eu preciso deles, preciso de os rever numa caixinha para ter a certeza que tive vida e ela foi palpável ao sentimento humano. Não isto que vejo, em que ganha quem come mais do poder e acreditam que nunca houve poder nenhum? Acreditam que tudo isto é uma farsa só para nos obrigar a desligarmos a ficha do que é importante para vivermos a merda em que estamos? Eu nasci em 1990 e acreditem que eu via muito mais televisão. E acreditava em muito mais coisas. Ninguém nasce ensinado pois não? Se assim fosse nunca haveria ninguém que tivesse medo de fantasmas, e eles existem. (inside us)

Insipiência

O passado não devia dizer-me nada agora. Não devia compensar os buracos que vou deixando neste chão de amarelos e laranjas insípidos, deste "sem nada" desconfortante, que de resto me fazia dias a fio caminhar em movimentos reflectidos, de encontro à parede retornando noutra qualquer direcção. Sou uma máquina do sistema que se esqueceu de inventar as coisas mais simples, e que retirou e pior ainda, reiterou essa maneira de ser de maneira tão soberba quanto absurda de se ouvir. Aqui estou não é? Creio que a maior prisão na vida é aquela onde se ensina tudo menos as boas maneiras, e nos prende a coisas em que nem a penitência por favor a sustenta. E viesse de lá um exército de boas razões para que depois eu me pudesse sentar e aceitá-las com mestria e sem nenhuma vergonha. Vergonha é o que falta para tanta coisa que nunca devia ter acontecido neste Mundo e olhem que ninguém repara nisso. O sol hoje estava vivo demais não estava? Sentiu-o desesperado, descompensado e fechado algures nas órbitas planetárias. E de pensar que um dia de rotina me faz pensar e desgraçar a paciência que existe, imaginar-me solarengo a fazer o mesmo milhões e milhões de anos, porque inválido nunca foi, mas já se pensou alguma vez que: se o sol se reformar, todos nos reformamos?

Siga

Refugiei-me nas musicalidade das letras ainda os anos se contavam pelos dedos das mãos, e refugiava-me porque sabia que era a única maneira de fugir e de saber o que iria acontecer a seguir. Mais ninguém adivinhou, antes uma carrada de "videntes" de bolso, prontos a conceber um futuro para mim que sabia que nunca se iria revelar. Não fazia muito tempo que saberia a resposta ao problema, como se fosse matemático, como se fosse lógico e nunca ousei apelidar-me de "mágico". Eu acho que, e da maneira mais vincada, um dia não são dias e cada um que posso viver gosto de renovar as pessoas, e tudo o que elas dizem, e de renovar-me (principalmente), mas não renovo tudo faz tanto tempo que já se apodera de mim um certo odor putrefacto das velhas ideias e das velhíssimas desconfianças em relação a tanta coisa. Não tentem adivinhar o que vem daí, não tentem sequer contrapor certas coisas que são evidentes, porque como os dias, uma pessoa não são pessoas mesmo apesar de muitas viverem em prol de outras. O mundo em que viv(emos)o é uma espécie retroactiva que nunca passou da cepa torta, mas toda a gente sabe e nada mudou. Deixem que as coisas sigam o seu rumo, talvez o passado seja outra coisa, o futuro outra qualquer e o presente, bem esse vai passando.

Imutável

É estranheza o que sinto,
antes fosse só no olhar,
que da alma também,
porque não são peremptórios só os resistentes,
que todos os outros que nunca ousaram sonhar.
Estranho as viagens nas noites vadias,
em que nem os passos consigo ouvir,
e quem enaltece tanto o que não vê,
amedronta-se no escuro das voltas que não dá,
e põe-se nervosamente a sorrir.
E num esgar e tremer de dedos,
vejo-te sóbria, mãos de manteiga,
e um beijo que rompe o silêncio ao luar,
um gesto que rompe preconceitos,
cais nos meus braços, velho rio,
que aos meus olhos, encantas,
e aos outros que não quero saber, nem escutar,
foste e és algo que permanece imutável.

Feedback

Os pés doíam-me de uma maneira infernal, e o ambiente que já era de um fundo bastante embaciado,já era meta perdida no tempo em que me encontrava. Não tinha relógio mas tinha preguiça e ambas são a mesma coisa se contarmos que jogam sempre com os ponteiros.Naquela altura nem desconfiei, estava vidrado ao cansaço, ao cinismo da acção e à incapacidade de ir mais longe do que então, mas caí numa altura que não era propícia e fiquei sentado, sentindo-me como um "prémio carreira" á espera para descansar. Não tenho moral para falar da vida (nem eu nem tantas almas que nutrem vontade de viver) e por momentos pensei que de um momento para o outro iria voltar, o que era terrível por não conhecer essa casa onde morei, enterrado às memórias que não foram mais que isso. Passadas horas e a preguiça, esse relógio que não pára, recebi um feedback que não esperava, obstante de que as coisas ficaram na mesma, talvez para um dia cá chegar e ver que a casa onde moro é outra.

Um palavrão da virtude

Nem todos os moralizados se sentem confiantes,
E nem todos os que o dizem o são,
E são indefensáveis os piores remates,
Como a crise de valores às doenças do coração.
E quem se atreveu a excomungar,
Ditaduras e leis, democráticas ou não,
Foi posto nas ruas da amargura,
Por ambicionarem serem o que já são.
Miseráveis são todos aqueles,
Que as pessoas dirão,
E muitas destas que o dizem,
Como que enganadas no que fazem, nunca o serão.
E quem acha que me sinto bem na vida,
Acarretam com a realidade que sonharão,
E mesmo que nunca faça nada,
O primeiro mundo que acabar,os outros sorrirão.
A simplicidade existe, e foi sempre a mesma,
Rotineiras clássicas ao tempo dos que virão,
Fazem-se certas, certas coisas,
Como quem faz a birra, e lhe pegam pela mão.
Sou um feliz que aqui ando,
Não digo que nunca disse um palavrão,
Mas se esta "merda" toda não fosse verdade,
O mundo, meus amigos, não tinha emoção.

Vidas

As palavras não me deixariam muito tempo,
Nem os momentos que as concretiza,
Só lhes falta a paciência e tempo,
Que algo que possa sair, realiza.

Sinto esse peso morto cair sobre o chão,
Oiço o ribombar e nem volto para olhar,
Foi o adeus profundo, nem era eu,
Foi com o vento a sussurrar.

E nestas horas lentas, concentração imediata,
Falam as pedras e os muros e as calçadas que tanto são pisadas,
E rir da realidade que vivem já é penoso,
Que viver no país, idolatradas.

E neste passeio de heroísmo e simplicidade,
Viveu os anos que quis, e que a nossa imaginação pudesse inventar,
Fui eu quem a pôs à prova,
A minha vida? Ninguém a pode tirar.

Mãe

Mãe, hoje o dia é novamente teu. Faz hoje 46 anos que no longínquo ano de 1963 nasceste bem perto daqui para nunca mais saíres. Podia dizer-te que tenho orgulho, que tenho a maior paixão por ti. Podia até saborear pela milionésima vez as palavras que gosto e sempre gostei de te endereçar e que eu sei que sempre precisaste delas. O meu amor por ti atingiu todos os dias da minha vida, e não precisei de o dizer, um pico crescente e inestimável pela tua força e exemplos que gostaria tanto de poder ser assim. Hoje já não me perguntas porque te abraço porque é hábito fazê-lo do nada porque num centésimo de segundo estou aqui sentado, como noutro agarrado a ti. Fazes muita falta, fazes mesmo e sempre soube admitir que lá no fundo puseste muito do que foste por mim e pela minha irmã sem nunca descurar a vida que sempre foi difícil para ti. Hoje sou um estudante universitário e agradeço-te por me teres dado essa oportunidade, e mesmo que possa ter desiludido, tive a noção que terias de saber as reais razões. Só o compreenderes, foi tudo o que eu precisava para crescer aos poucos. Um dia que tenha sonhos gigantescos realizados, vou assinar por baixo e dizer que foste tu minha querida Mãe que me deste o Mundo e um futuro muito melhor.

Obrigado Mãe

Sabes mãe, não quero perder a oportunidade de dizer que te amo. Não quero imaginar sequer as dores que tiveste em me ter, criar e a paciência que tiveste em me aturar. Nem sempre fui o rapaz calminho que era, e fiz coisas que nem devia ter feito. Menti-te e tu sabia-lo tão bem quanto eu. Deste-me a liberdade para escolher a vida que queria e dei-te o pouco amor que tinha para dar. Hoje com 19 anos sei que a vida tende a decrescer naquilo que era há uns anos atrás e tenho medo, como tinha quando me pegavas ao colo de perder-te, de perder o que me faz tanta falta. Hoje levas um abraço maior, um beijo maior e um amor maior e que nunca te esqueças que sou poeta, sou filho, sou homem, sou o melhor porque aprendi com a melhor mãe. Perdi tantos momentos a imaginar que queria ser uma coisa que não podia e lixei-te completamente a cabeça. Ainda bem que sei que o amor ainda não se paga, e hoje ele é todo teu. Posso-te agarrar as pernas novamente com vergonha? Posso-te pedir doces e chorar com birra?

AMO-TE MÃE!

Não é impossível

Não conto as letras do que vivo, porque os momentos também não se contam. E não é impossível escrever de olhos fechados envolto em qualquer música que houver e muito menos é impossível explicar os sentimentos, as emoções e os devaneios estranhos vindos do profundo de nós, não é! Impossível é atingir pelas letras a força que nós temos para superar tudo, tudo o que nos envolve como uma manta nas velhas e doces noites de inverno. Impossível é gerar as palavras certas nos momentos exactos sem que para isso fosse quase impossível saber o que pensar, e agir logo a seguir. Se achei ser difícil viver foi porque fui demasiado fraco para pensar na sorte que tive e continuo a ter. E mesmo os que mesmo assim dificultam as palavras pela vida parca, agoniante e sem sentido que têm, não era impossível dá-los um bocadinho da minha sorte para que mesmo que não haja igualdade, continue a não se contar os momentos que nem as palavras conseguem descrever.

Se as minhas palavras ajudarem...


300º

Pensar faz assim tão mal?

Tornou-se um hábito que habita em mim permanecer intacto olhando quem passa por cima de qualquer ombro. Não se trataria de observar os costumes do tanto que estou acostumado, mas o tempo que se dá por incerto leva-me a tentar ver as coisas com olhos de lince na fina linha do horizonte, perdido entre a escuridão e o fim de tarde, já triste por si só.

Sou assim tão diferente?

Sei bem o que fiz à/na minha vida, e não me questiono nem pergunto se me arrependo/arrependi. For what? Foi tudo uma noção concreta do que pude ter, pensar ou ser, e tudo teve o seu travão e os seus devaneios sem nunca ter estado num estado caótico que não pudesse resolvê-lo. Residiu um erro, e hoje ainda a remediá-lo com pensos na fantasia de que as coisas que ficam, ficam e ponto final.

A minha personalidade é obviamente tão bem demonstrável?

São ataques de pânico como um miúdo os tem quando vê fantasmas no ar, que ficam na cabeça como um punhal intensamente espetado e adornado com uma dor prensável e incapaz de se suster, tudo porque o risco e a oportunidade são pouco vulgares na vontade de as ter e acaba-se assim, para um sempre que nem sei, um momento ainda possível mas irrepreensível.




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