Quando dou por mim a pensar, muitas vezes chego a navegar noutras vidas, noutros mundo que não o meu. Chego a amaciar o vento dessa tola loucura de imaginar as coisas boas que a vida também me consegue dar. Sou feliz, perguntam-me, respondo-os com audácia. As coisas requerem tempo, espaço e sobretudo paciência. Requerem noção das coisas e vontade de lutar por elas. Não me perguntem mais o que sinto, se o que sinto é por demais verdadeiro. Não me perguntem mais o que é, se as histórias em comum são contadas à distância do ouvido que queremos que não o de mais ninguém. Desejo-me as maiores felicidades, na ânsia de sempre continuar a pacientar a consciência desse tempo que se constrói connosco e isso me deixa com um sorriso de orelha a orelha, dos mais belos que podia transmitir. Obrigado a ti por todos os momentos, e obrigado por te tornares no que és para mim.


L

5º aniversário

Foi exactamente há 5 anos que este blogue sorriu para o mundo. Era a brincadeira do costume e a arte a pousar nos ombros como se uma responsabilidade para a vida se tratasse. Vivi muito isto e muito aquilo, aqui e ali, e partilhei com todas as nações que o puderam ler, reler ou sobretudo ver o tanto que pude deitar cá para fora em formas singelas de naturezas menos mortas, de céus e mares azuis, de autênticas áreas verdes de se perder de vista. Aqui testemunhei também para mim mesmo os grandes momentos que atravessaram o meu tempo, as horas que perdi em busca da verdade esquecida. Aqui desabafei como nunca o tinha feito lá fora, e aqui guardo segredos que só mesmo eu consigo decifrá-los. É a arte das letras mas acima de tudo a arte de viver. Hoje assalta-me essa pequena emoção de ter conseguido manter esta dita brincadeira durante tanto tempo, ter conhecido e admirado tanta gente, que agora muitos soletram as almas no seu cantinho longe de quase tudo ou quase nada. Foram 5 anos, os melhores de sempre. 5 anos em que atravessei os continentes em busca desta cultura, desta azáfama de ter visualmente o que os outros, o que eu e tudo, sentem e consegui lá chegar, consegui imaginar-me lá onde os deuses não acabam nunca com a alegria e a sanidade das palavras ditas e das frases achadas. Foram 5 anos em que experimentei as emoções todas, as dores todas, as que matam, as que dilaceram, as que intentam, as que amolecem, as que endoidecem, as que maltratam, as que martirizam, enfim, as que ficam muitas vezes. Experimentei os maiores sorrisos e os maiores amores, as maiores mentiras, as maiores loucuras e a maior insensatez. Experimentei tudo o que tinha direito que a vida não me reserva dias especiais se não lutar por elas. Agradeço a quem fez disto muito maior do que poderia ser, a quem faz da minha pequena paixão uma opinião sincera e a quem por isto me faz feliz também. Obrigado por tudo! 



imagem: http://banda.novopentecostes.com.br/web/wp-content/uploads/2009/03/bolo_aniversario.jpg
De tanto andar sobre essa escuridão, aprendi a olhar-te docemente entre as ramagens. Escondias-te e ouvia-te em risinhos premeditados, como se ainda fossemos crianças a aprender o abecedário e essas divisões estranhas que nem sempre tivemos a manha de guardar. Como se o mundo fosse um rasgado elogio, foste sempre preenchendo o espaço, sarando as feridas e tapando falhas incomensuráveis. E as vezes que soube esquecer de tudo o resto por breves instantes? As vezes que tornei em gestos o que os sonhos teimavam em sair? Existe uma outra parte que marca profundamente os meus passos, e que escreve todos os dias no meu corpo um beijo diferente, um toque subtil e uma alma renovada. E Belém acolhe-nos em sonhos de grandes conversas, em fazer crescer tudo o que temos direito. E o Tejo sabe de tudo, esse malandro.

1922 - 2010

Hoje escrevo a carta que nunca pensei escrever-te. Há coisas na vida que nos custam admitir mas a verdade é que os melhores também partem e nunca haverá como evitar isso. Foste um senhor nas letras e na história, e quiseste tanto mudar a face deste interregno, deste país tantas vezes medíocre, que te fez ir para longe onde nada disto acontece. Eu tinha oito anos quando o mundo depositou os olhos em ti: eras prémio Nobel, caso raro na nossa língua e mais que merecido da parte de quem te viu como o melhor - lugar que aliás nunca mais largaste. Eu li-te mais que uma vez e mais ninguém sabia tão bem criticar tudo como tu fazias, dizer tudo da maneira mais soberba e impressionante possível. Deixaste um legado tremendo José! Deixaste a literatura portuguesa de rastos mas eu quero prometer-te aqui uma coisa: eu e todos os que escrevem nesta língua, honraremos a mesma cultura que tu, criticaremos e amaremos a Pátria como tu. Mas promete-nos que agora ultrapassas as palavras e olhas por nós, ultrapassas a vida e vês onde pomos os pés. Nada é comparável ao que fizeste, nada. Era apenas um Obrigado.

Descansa em Paz meu caro José Saramago.

(imagem: http://durodrigues.files.wordpress.com/2009/10/jose-saramago.jpg)
Defino-te num traço sintomático em contornos cheios de vaidade e de espírito. Reconheci-te numa melodia a colcheia que te representa, e saltas de compasso em compasso e eu vou fechando os olhos, abraçando-te suavemente dizendo-te: "eu tenho saudades...", e um coração sedento dessa emoção contemporizada, sempre de espaço reservado e alma aberta a esse sentimento puro de um rodopio feliz ao ar solarengo e tempo de céu limpo. Vejo-me em todas essas solicitudes um rasto anímico de um sorriso parvo, brejeiro e inocente apenas por me lembrar dessas palavras, desses gestos que penteiam o que une o que somos ao que fazemos.
Defino-te e mesmo não sabendo desenhar, percebe-se bem a vontade que há em tornar possível o imperdível.
Tenho dito. 
Admito que não é fácil conter-me por estes dias. Confesso, na minha mais vil ingenuidade que nem sempre abri os olhos e me perdi com a maior facilidade, mas tudo na vida aprende-se mesmo nessa saudade louca que nos consome da raiz dos cabelos à ponta dos pés - estremeço como se sofresse um abanão em toda a estrutura que me suporta. Sou por estes dias um micro-clima, um ambiente hostil que me eleva a uma guerra desigual sem adversários, sem armas, sem trincheiras, sem nada. Procurei as saídas mas as paredes não têm portas, antes vi andorinhas a saírem pelo telhado mas não consigo lá chegar. Vejo-me constantemente de mãos nos bolsos perdido em ruas passadas por outros poetas que como eu viviam a vida da mesma forma, num apressado ritmo que não permitia solenidades nem paragens para beber água. Vejo-me perdido de uma forma conformada, impotente sem nada poder fazer. Vejo-me e não me encontro, seja lá da forma que for, tudo na vida aprende-se.
É a vida que levamos e ninguém nos tira isso. Não descuro os melhores e os piores momentos e muito menos a a frequência com que nos sintonizamos. A verdadeira história conta-se pela força, pela vontade e calos que o tempo acaba por nos imprimir e também pela persistência do que a verdade não esconde em si, na verdade. Eu podia, vezes sem conta, admitir a história que hoje tenho para contar mas quero ser intemporal, quero ser aberto e mágico nas letras que me saem a toda a hora desta boca. Não esqueço as memórias mas interessa-me mais o que vivo agora, o que me pode e faz realmente feliz. Sei, porque o saber não ocupa lugar - e disse-o mais que uma vez - que tudo o que acontecer era porque algo o escreveu assim, que tinha realmente que acontecer e quis e continuo a querer andar com a vida agitada até ao dia que vejo nesse céu que realmente está escrito para nunca desistir. Até ao dia que me sinta envergonhado, tímido e ansioso, até ao dia que gostaria que fosse bem real. Não posso pedir mais, nem admitir que já aprendi tudo. Não quero ir mais longe que arrisco-me a ir sozinho. Quero ser compassado, soberbo e consciente. Quero ser insolvente neste mundo de loucos e correr o risco de arriscar e pertencer para sempre a um lugar meu, pela dedicação que quis e quero demonstrar. Eu sei que me lêem e principalmente tu. Sei que me esqueço que o jogo não é jogo, e muito menos de sorte ou azar. E por mais que as letras saiam numa rapidez profunda, apenas vou lutar pela profundidade que a rapidez nunca foi amiga da perfeição. Histórias difíceis todos temos, todos julgamos e vivemos. Empenhado em contornar a história e não permitir que esta seja esquecida.
Não saber o que é a natureza,
passar por ela e abismar-me,
é a mesma natureza que me fixa,
e me encolho e me deleito,
a cismar-me.

Estico o braço, fecho os olhos,
dou-te a mão e deitas-te no meu regaço,
não oiço mais que os pássaros e o azul tenaz do céu,
não há um sentimento melhor que o teu abraço.

Vivi tão loucamente,
e foi tão loucamente que me esqueci,
que o tempo merece atenção,
e tudo merece tempo desde que te vi.

E de todas as certezas, nessas princesas em castelos encantados,
volvi muitas vezes nesses cavalos já cansados,
irei a pé, descalço corajosamente,
porque podem não encantados, mas nunca será o castelo que procuro, idolatrados.
Desfaleço em cada palavra que soa,
e perco a consciência de ver o sol passar.
E de refazer cada gesto pensado,
perde-se o tempo até tudo acabar

Sou a mais amarga sentença,
cresci, nutri em cada esperança minha,
vi pender nesse coração pequenino,
a voz mais fina que uma linha.