Existem dias dos quais não devíamos acordar. Choques vespertinos que dilaceram a força anímica e acabam por fazer anoitecer mais rápido as madrugadas sem sono, as insónias repentinas. Sinto-me a refazer a vida constantemente, a aprender a lidar em mim o que os anos que passaram já devia tê-lo feito - mas não me condeno, que as prisões servem para todas as idades. Sinto-me conformado e insatisfeito e não gosto de ouvir que "a vida continua", muito menos das verdades das revistas ou das verdades cerebrais. Sinto-me abstracto e algo desfeito, de quem se deitou ao chão com mais uma derrota. Sinto-me infeliz, triste e descompassado. Sinto-me solúvel, só e um desacreditado. Sinto-me calmo, a libertar um peso morto de consciência - que não ela, que ela marca e bem - mas um peso morto de tanto imaginar-me a cair, em queda-livre, em direcção ao mar. Sinto uma lágrima a escorrer e uma raiva de não ter feito mais, muito mais para merecer algo mais. Sinto-me apenas aqui, de volta do céu e da lua de onde andei este tempo todo.
Mas sobretudo, eu sinto-te.
Sou um completo devaneio, um desvario na emoção com que vivo as coisas. Que peito sôfrego este que não se contenta com pouco e desfaz cada argumento numa pura ansiedade e alegria que ao momento estranha sempre por falta de hábito. E vivi o que não sabia há muito o que era, e as sucessões limitavam-se ao infinito da arte do amor, que tanta chicotada psicológica me provocou com a experiência e a subtileza de um sentimento nem sempre bem-amado. E o passado hoje passa depressa. Guardo em cada segundo cada falha preenchida dessa alegria incontida. Guardo tudo o que ela é.
Preenchi o vazio à razão de uma alma perdida. Renasceu da pólvora seca esse baloiçar enferrujado pelo vento estagnado, por quem tratava dele e nunca mais voltou a tocá-lo em harpa e violino orquestrado. Lembro-me, que a memória não me atraiçoa, desse coração que tanto esperou pelo suspiro que o elevasse em nome e espírito ao sítio onde jamais alguém pudesse alcançar, senão no ponto fraco ou na profunda incompreensão. Pus-lhe óleo e pintei-o de fresco. As pessoas notavam em si a estranheza do sítio e da repentina vivacidade - "está mais bonito", diziam. Mostrei a viva prova de que as coisas têm os seus eixos quando se equilibram na emoção de cada momento. Respirei fundo, abri os braços e deixei-me cair sobre a relva molhada da chuva.
A noite quando cai tem outro encanto,
sobem ao céu as luzes da ribalta,
desfilam perfiladas as luzes e as objectivas,
e a lua que se enche bem alta.
Procuro na espera, e olhos deitados ao chão,
a ansiedade do momento, o prazer de acontecer,
PAROU! e nesse segundo achei ter perdido a noção,
e nunca deixei de ver.
E hoje, longe de tudo o que foi,
ainda recordo com exactidão tudo o que se passou,
e quando juro a pés juntos esta vida mudar,
eis que recordo todos os dias o que sempre me marcou.
500º
Vira-se a porta do avesso,
não tem fechadura nem puxador, madeira impregnada
Quem entra não tem retrocesso,
quem por demência quer sair, nem sai nem por nada.
É a porta dos génios, dos poucos que sobrevivem,
os que escrevem, os que fazem, os que pensam e dizem,
que nem dá direito a olhar para trás nem passado,
nem que os avisem.
A vida só tem as fases importantes,
as que são vividas e apaixonadas,
as que são sofridas e aprendidas,
as emocionantes,
as que ficam.
E em cada letra que se escreve, formam as palavras de quem lê,
e porque alguém no mundo irá gostar,
outro alguém acabará por reler,
a paixão que me une por trás dessa porta, o escrever e amar.
De olhos fechados, cheguei a estar,
entre o doce sonho, e o fresco luar,
não havia palavras que o descrevessem,
era o seu jeito de menina e moça, olhares que me comovessem.
Dá-me a mão, suspira e caminha,
cada calçada uma história, sorri num traço ou numa linha,
não escondo este meu novo mundo,
tão profundo.
Soprava vindo do céu todo esse vento solarengo, e avistava-se num rodopio incessante, as gaivotas que atravessavam o porto em direcção ao mar. Sentei-me na esperança que ela viesse, de braços cruzados e de cabeça cheia desse pensamento que preenche os dias incertos e as borboletas no estômago. O tempo era de "quase-chuva" e o sol desaparecia no horizonte como desaparecia a expectativa e a sobriedade e na verdade, se perdia as horas dos ponteiros do relógio. Há muito que não conseguia sincronizar essa verdade com o sentimento, e a luta que levei pela reciprocidade fez-me escalar a montanha desses desejos íntimos de ser feliz, de não escapar à força que o amor tem que nem as palavras conseguem explicar. Fora os passos dela, que soube depois, que despoletaram essa minha curiosidade de descobrir que partilharia comigo a solidão do mar com a terra - senão a minha. Encostou-se a mim, duas a três palavras no ouvido, um beijo, uma dúvida desfeita: Não ficas sozinho David.
Cada vez que me olho nos dias que me tem corrido, vejo tudo a transbordar. Sinto impurezas que me tapavam a alma de tentar ao menos ser feliz - e eu que nem pedia tanto - mas há dias que as coisas más se calam para verem passar as boas. E tudo muda, ou melhor, se organiza, que a vontade para ter não chega que a luta não termina tão facilmente. Transbordo essa alegria de miúdo que acaba de entrar numa autêntica montanha russa e se diverte como se nunca sentiu antes, e eu quero aproveitar enquanto posso, que a felicidade chama uma vez e há ainda os que não aproveitam. Liberto tanto e liberta-me o estigma de até me ter sentido mal comigo mesmo, pelo que sou para mim que ela me faz esquecer tudo isso. Até as guerras acabam e os subentendidos ou os mal-entendidos. Hoje limpo o quarto cada vez que entro e arrumo-o quando saio de casa. Nunca se sabe quando partilho num mundo só meu, só teu e só nosso os segredos que só a almofada soube ouvir sem escamotear, sem pestanejar, sem suspirar. O que transborda em mim é sobretudo um sentimento que me revoltou tanto, é sobretudo um baloiço que voltou a voar ao sabor do vento, é sobretudo ter a companhia que tanta vez pedi aos céus num vago suspiro de crença que o amor ou é sincero ou não existe. E fi-lo existir e descer à terra, e fiquei tão surpreendido que me esvoaçam borboletas no estômago de pensar, ou mesmo de imaginar o que possa pensar. E tudo tem o seu tempo, o seu espaço, a sua subtileza. E eu tenha o medo de perder, o ciúme e a preocupação. Que possa até guardar o maior segredo do mundo, mas deixem-me prolongar estes dias e fazê-lo uma verdade, porque o Homem sai à rua e a luta continua. E o amor não resiste com o sol, que também a chuva prega partidas. Deixem-me saborear o que não sei o que é há tanto tempo, e deixem-me aprender a viver isto porque não encontro nos livros. Deixem que transborde porque antes a mais que a menos. E tu, não me deixes nunca.
Desabafo à vida em dia de tudo e de nada. Nem sempre fui a pessoa que fui e devia ser. Fui ingrato e demasiado destrutível. Fui egoísta para o mundo e nada ficou pelo mérito que tive, mas quis mudar sem nunca o acontecer. Por vezes as drogas fixam-se na vontade de as consumir, e não param nem que o cérebro se desfaça e o faça mudar de vez. Nem sempre fui o exemplo nem a força de ninguém. Fui intransigente e incompleto e vivi muito dessa pré-necessidade de acontecer as coisas ao ritmo certo, mas estive sempre no passo errado. Magoei e fui magoado, num rumo nada normal do tanto que quis aprender a ser. Peço desculpa se estas ainda não aceites mas nem admito as velhas máximas se o erro acontece mais que uma vez. Mas, aparte da vida que me leva no seu regaço, que o futuro me traga outra lufada de ar fresco, outro momento e outra cabeça.
Salta-me a tampa de saber que a chuva serve o romantismo às tragédias que provoca. Sou muito dono e senhor de uma boa conversa de café, na ancestral e desconhecida forma de comunicar entre as pessoas, que as torna muitas vezes especiais e únicas, que as torna diferentes - mas não acredito em amigos ao primeiro dia, atenção! - mas acredito mais no sol que queima que na chuva que molha (o sol não provoca enxurradas) e até me dá outro sabor ao dia, mais se este correra mal. Sou muito de ver o mar e escutar os rodopios das ondas (parecem gente, diria eu) mas com outra beleza que não emanam por aí - nem que o sol fosse de potências várias ou de tamanhos variados - e sempre trazem na verdade ar fresco. Isso de pessoas que dão lufadas de ar fresco...Não, não concordo nada. Provocam, sim, sensações diferentes que nem o próprio mar consegue fazer. E lembrei-me de outra coisa: sou também uma força descomunal em lutas sem abrigo ou fatos carregados de aço para me segurarem a vida. Essa, suja e gasta nas horas em que nem sempre tenho discernimento para pensar ou magicar as palavras que me seguem, que me guiam, que me explicam, que demonstram que amanhã é dia de pagar o que não se deve. É apenas dar a quem aceitar.
Muito me digo e hoje não quero saber. Não quero saber sequer do sofrimento que arrasto na alma por onde passo, e muito menos me seguro ao peso das lágrimas, mas hoje não consigo nada senão desabafar o tanto que escondo aqui dentro. Não consigo suportar a ideia da perda nem da falta de. Não consigo imaginar-me sem o chão ou a mão que me segura. Não consigo conter-me quando esvaziam-me a consciência e a força à natureza. Não consigo pontapear uma bola com a força que pontapeei as paredes por onde passei, e mais ainda, não conseguir segurar-me nas pernas com a dor de perder o tendão futurista para conquistar novas forças, e renovada confiança. Não consigo não esconder as lágrimas que me brotam no rosto como agulhas em direcção ao chão. Não consigo correr e alcançar os cumes que me faltam na vida. Não consigo não sofrer no perfeito estado de desequilíbrio e desistir de tudo o que me move. Não consigo ser igual a ninguém e olhar para tudo como experiência de vida. Não consigo parar de me inconformar com os apostos nem sempre se atraem. Não consigo não amar tão docemente nessa loucura estranha que se apodera de mim. Não consigo viver não tão intensamente como se tudo fosse com calma e não tivesse o "timing" certo. NÃO CONSIGO, pelos menos hoje. Pelo menos hoje deixem-me respirar e deitar o lixo fora. Pelo menos hoje deixem-me sonhar com coisas realizáveis. Pelo menos hoje deixem-me aprender que não se pode ter o que queremos ou que nem sempre estamos destinados à sorte ou ao azar. Pelo menos hoje não me parem as lágrimas, que chegam a ser chicotadas nas costas, senão as psicológicas. Perdi a cabeça, não o corpo. Perdi o sentido, mas não as letras. Perdi, mas não perdi tudo.
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