O caminho que percorri, era de searas de trigo a uma distância inalcançável. A terra batida por baixo dos pés e um cheiro adocicado a liberdade, era tudo quanto a natureza me queria dar, e a sombra astuta das árvores carregas de um verde que nem a esperança se lembraria de dar ao mundo. E os pássaros que a primavera trouxe consigo, levando no ar a sensação arrepiada de nos embalar com as suas canções, e o sol que iluminava os campos e lhes imprimia um brilho inolvidável e uma estranha imagem de puzzle natural à vista desarmada. Fazia-me na decência do meu verde olhar, e do tom rosado de um sorriso confiante, soberbo e descomplexado. Explicar o que a paz nos torna à casa é como pôr uma mensagem numa garrafa e mandá-la ao mar para que um dia volte com as novidades que a natureza não deixa sair para fora. Como em nós: nem sempre podemos julgar o que nos acontece, se simplesmente acontece. Não podemos ajuizar o que cresce quando algo a fez nascer. Podemos determinar a liberdade com que é feita cada acção, mas nunca agarrar as oportunidades que não são nossas. Podemos, inclusive, fazer crer que as palavras moram no coração de quem as sente, mas nunca agarrar o coração de alguém sem o poder fazer. Podemos, por fim, pertencer à eternidade das coisas. Mas nunca ser apenas por ser.
Aprendi a ter medo da vida, na ausência dela. Nada espelha na perfeição tudo o que se revolve cá dentro num estardalhaço monumental de quem perde o equilíbrio, de quem cai e parte o fino traço dos passos dados até hoje. Estranho os tempos que correm sem nunca me ter perguntado por eles, e talvez não tenha sentido nas mãos o peso da responsabilidade de assumir de uma vez por todas as rédeas de tudo o que nos diz respeito, porque impor a autoridade e a moral é muitas vezes matéria para cursos superiores e a vida não está para isso. Aprendi a não poder fechar os olhos aos momentos inesperados, mas a lutar contra eles e a fazer merecer tudo aquilo que o passado não mexeu comigo ou que os dias não correram da melhor maneira. Sou um baloiço parado hoje, soluçando num choro tremido tudo o que a cabeça por momentos não consegue arrancar. Perde-se o sentido, mas o vento empurra-me para a frente, de onde nunca sai a vida inteira.
Uma cabeça vazia é por vezes vazia de tudo,
"nem sempre passa a memória, nem sempre filtra a emoção",
é poder voltar a encontrar o equilíbrio,
que não há, que não sorri,
facilmente.
É um descolorir momentâneo,
da vida que se experimenta,
é um fechar a porta às palavras,
é um abrir exagerado do ar estranho,
do sonho salobro,
que percorre o espaço estranho,
entre o que se passa e o que se quer.
Não admito a verdade,
se não o é.
Não me perguntes o que vai nesta minha cabeça, se ainda não a vivi o suficiente para te responder. Era a inocência de querer e acabou na miséria da desilusão - sempre a mesma história - era a névoa que me assombrava os fins de qualquer coisa boa e tu sabias fazê-lo melhor que ninguém. Nunca foste boa a lidar com verdades. Dizias ser de confortos e de luxurias que nunca estariam disponível para mim e eu aceitei, aceitei porque ao teu lado tudo o que era sincero era duro, sem piedade nenhuma. No entanto a teimosia foi para mim um posto de vida. Renasci à margem de qualquer coragem subdivida nos teus planos inactos de me fazer feliz. Perdeste a aposta, e eu perdi-me em ti. O amor foi sempre o sexo que havia e não acabava; o amor foi sempre a disponibilidade e não tinhas; o amor foi tudo e o medo de engravidar. O amor, minha querida, não envolve tamanhos corpos, nem esses sentimentos desditos à pouca vergonha da tua decência. O amor era um foguete em dia de festa mas era preciso fazê-la primeiro. Que mais me vi nas loucas horas que te imaginei? Que mais temi que não fosse um sonho que algum dia me pudesses aceitar. Sabes, a esperança não morre tão cedo, eu é que já não luto tão cedo por ti. E esmaga o sexo à luz da tua felicidade, e usa-o para te conformares, mas não te esqueças que eu como sou fiz mais por ti do que qualquer homem, qualquer humano que conheces. Cada um tem o que merece...e o meu altar é o topo do mundo.
Que amor é este que me consome sem nunca lhe atear fogo? Que vento é este que me leva a ti sem saber onde estás? Não consigo esconder de mim a sensação estranha de borboletas no estômago, que vão esvoaçando como doidas na fresca primavera do ano e tudo se resume a isso: estranheza. Mais ainda quando te queria ver, como te vejo nessa imagem fictícia na memória que mais nada me deu senão a ilusão, a esperança e dias melhores. Fui sempre feito desse amor diferente, maior até que a própria imaginação, e nunca me dei bem - estranho, mas preocupo-me - que chegasse o dia e o momento para acontecer tudo o que se pensa ou quer-se com destemida vontade mas o tempo não corre quando devia fazê-lo, os dias não são o que deviam ser. Que culpa é esta que trago? Que ansiedade? Que vontade? O amor é um sentimento perigoso que não sabe baloiçar à chuva nem ser-se social. O amor é uma ligação e nem todos têm esse direito tão facilmente. O amor sou eu mas falta o resto.
Novo blog: http://www.tempoameno.blogspot.com, apareçam!
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Procurei-te com os olhos em toda a parte: nas memórias, nos sentimentos e nas emoções. Foram como que um pôr-do-sol que nunca aconteceu mas que nos marcou a vida inteira, foi como que um livro aberto à espera de ser lido. E encontrei-te sóbria, descomprometida com a realidade, a viver nesse teu mundinho à parte que nem todos entram e nem todos saem. Tive medo de sair, confesso-te. Tive medo de me perder de vista para fora do que tanto me enraizou a essas pequenas felicidades de bolso que crescem como cogumelos saudáveis nessas florestas tropicais. Que cegueira veloz me ultrapassou o espanto desse teu sorriso. Descrevo-o como um dos momentos mais bonitos da minha história, gravada, postulada, imortalizada na consciência que fica e naquela que se perde. Procurei-te com os olhos em toda a parte...e em toda a parte te vi.
Nunca o medo foi como uma pedra,
ou um trovão que a tenha partido.
Nem a janela do meu quarto se abriu,
que dia tão bonito que não me sorriu.
À palidez das palavras,
e tanto que as ouvi gritar.
Foi uma pedra que pensei cair,
era decerto para me magoar.
Hoje sou apenas um lenço branco,
procuro paz e tudo a bom-porto.
Sou um pensamento vago,
distraído, absorto.
Observei-me muitas vezes no espelho da alma. Encontrei pó e ferrugem em cada lugar onde esse sentimento mortífero nunca chegou a passar - nunca amei completo - e cheguei a entrar em histórias à margem dos precipícios, das verdadeiras tempestades que nem o Apocalipse temia tão cedo - na verdade, eram turbilhões que a alma não aguentava - e tudo era tão solene como se mais nada houvesse para além da dúvida, do medo e da tortura de tomar decisões que a própria vida não esperava. Julguei a minha metamorfose de louca, estúpida e ignorante, mas não as escrevia se assim não fossem porque julgar é justiça e justiça impõe ordem. E quantas vezes vagueei desordenado sem sombra para me ausentar? Quantas vezes manchei a decência e a impotência para viver outros mundos que não os meus? Quantas vezes me deitei à rua e perdi a consciência? Era ferrugem de portas empenadas, sobretudo do coração, e o pó das memórias em que tudo era inocente e perspicaz, era tudo um apertar de bochechas e risinhos de sinfonia. O pó conserva e a ferrugem é história. E eu faço perto dela!
Quando pouso o meu braço, de olhos colados ao vidro, imagino a paisagem como um som que se esvai constantemente. Não oiço sequer um suspiro da natureza que ela mesma sou eu com tudo o que vivo por dentro com a mais verdadeira e sensata das intensidades. O ontem foi efémero, o hoje passa rápido e o amanhã não é nada, e tudo é tão simples e discreto que chego a imaginar todas as vitórias como aquelas que "tinham de acontecer". Uma lágrima é uma emoção que está a mais dentro de nós, que precisa de transbordar como a água de um tanque onde as memórias brincam como crianças a sorrirem. Logo, é natural que uma lágrima seja demasiado humana e que possa libertar-se como uma revolta para a liberdade e cravos vermelhos lançados ao ar. Os olhos que as vêem passar são pequenas telas fotográficas que retratam a cor de tudo o que existe e vão mudando a objectiva consoante esse tempo maldito, que não descansa para absorver tudo o que se precisa e analisar cada infinidade de momentos que também se perdem sem resposta. Nenhuma fotografia volta atrás, nem o preto-e-branco do passado que também ele fora colorido para quem o viveu. E conheci tanta gente, e vivi tanto, que não haverá ninguém que apague a cor com que sinto cada coisa, porque cada uma tem o seu tempo. E morra este maldito, e morra a decência, mas nunca o desistir de uma esperança eterna de ser sempre verdadeiramente feliz. A vida é apenas uma corda, e com elas se fizeram pontes.
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