Destino

Nem a janela fechada sobre o mundo faz parar o som da chuva que cai. Nas trevas da noite, só a fraca luz, longínqua e indistinta, faz tornar palpável todas essas gotas que atingem o chão como balas atiradas das nuvens. As nuvens onde me encontro nessas conversas de gente grande a palpitar sobre os problemas que a nós diz respeito. Se sou de meios termos, põem-me porta fora que num círculo fechado só faz falta quem encontra ali um cantinho puro dos desabafos de domingos à tarde, de lágrimas solidárias e revoltas megalómanas sobre tudo e sobre nada. Hoje estou calmo, assim quero estar. Quero estar sentado a ler um bom livro, a ouvir uma boa música. Quero estar de televisão desligada se a desgraça nunca vem só. Quero estar com o que realmente importa, com as pessoas que faço falta, que num círculo fechado não há meios termos. Só sei amar a vida desta maneira. Desculpa, desculpem-me. Que nessas conveniências e jogos de sedução não chegam olhares e palavras vagas, que não há distâncias que afogam as razões de muito querermos pensar, agir e conformar perante tudo aquilo que nos diz respeito. Adoro-te, a ti e a quem vou gostando pela vida fora porque sei que o tempo é tão espaçoso de nada e tão efémero que chego a escutar o silêncio quando me diz que apenas se vive uma vez. Diz-me apenas o que é bom de se ouvir, que hoje, neste meio segundo,estou farto da rigidez do destino.

A sorte não é um acaso

Sinto a pulsação constante no tempo. Esses baques, alegres vespertinos, acordam-me docemente nesse escuro do meu quarto que só uma fresta derramada pelo cortinado faz destoar o simples movimento do nada. Quando oiço a tua voz, que o silêncio embarga-nos nessa intimidade só nossa, oiço os sentidos a tremerem no vácuo das emoções, a despejarem algo que faça preencher a minha vida, alimentá-la, que não se faz luz como se nada acontecesse porque nada vem e é por acaso. Acasos não existem, simplesmente não tínhamos conhecimento disso. Tu rejeitaste sempre outro tipo de conhecimento que não o senso-comum, e eu gostava de ti por isso. Eras primitiva e tinhas a escola toda, a mais que só os génios poderiam atingir - e tu eras-o - tu confiavas na sorte como quem confia em si própria e acertavas sempre. Admitiste o erro e a intransigência. Idolatraste a originalidade e o pensamento. Gosto de viver porque esta é um desafio, um clássico entre mim e tudo o que está fora de mim. Que na alma temos mais do que pensamos. j

Sempre soube ser assim

Em tudo o que faça, sinta ou diga,
é sumo de frutas em copos de cristal,
que vai dos verdes campos das madrugadas,
às lezírias belas e imaculadas,
e tudo permanece tão doce, único e especial.

A ela, inspiração e lucidez,
nesse cheiro doce de frutas primaveris,
e nesse fechar de olhos, esse licor,
deuses se fecham nesse amor,
que é beber da vida e desfrutá-la quando te ris.

Acredita, tudo é um fervilhar constante,
desse desconhecido por desconhecer,
que tudo o que sabemos é pouco,
que um grito mudo sai rouco,
e vou nesse destino de (te) conhecer.

Sempre soube ser assim.

Dança

E nas mãos que faço poesias, desse teu cheiro a mar. Tudo é calmo nesse brilho de estrelas cadentes, como se o mundo fosse afunilando como pedra de gelo a percorrer-te a linha das costas. Arrepias-te. E vejo-te balançar ao som das modas, enquanto te observo de olhos meigos e ritmo balanceado. Oh, doçura! Um "Oh" suspiro penetrante, e pele de galinha nesse teu encanto único de bailados estonteantes. Fechas os olhos e deixas-te levar, ris, sorris e rodopias. Estou atónico, aterrado no sofá que costumas dormir. E vais dançando, e eu acompanho-te sem pestanejar - danças tão bem!. E quando acabar e olhares para mim, não direi uma palavra, que assim saberás que te guardo assim nessas palavras que nunca te direi. Para que elas servem, se não dizem tudo?J

tempo

Este aperto que vai cá dentro,
esse abraço que não recebi,
era dia de chuvas fortes,
nem me lembro do que vivi.
E no longe da velha esperança,
não se desapertou,
"-Que se passa david?", perguntam,
foi o mundo que não virou.
E nu, no frio do velho casco,
vou guardando essas alegrias,
nesta vida de acentos,
ganham-se e também perdem-se os dias.
Desistir? Muito cedo,
que ainda não é mau o momento,
apenas uma rajada levou de mim,
dois segundos preciosos do meu tempo.

Eu tenho

Antes de todas as estrelas, o mundo não era nascido. E poucos perceberam isso pelas opiniões que deambulavam por aí, de cafeína e olhos despertos, que este azul não era para brincadeiras. E tudo se tornou claro nessa estúpida cegueira que nada mexe com a substância, o inconsciente, a noção profunda de cada coisa, que o mundo quando nasce é só mesmo para alguns. Mentira. Obstruí-se essa vontade de crescer o comportamento humano em relação ao pormenor, à picuinhice das coisas realmente importantes, que as que são demasiado palpáveis estão deterioradas, gastas desse tempo infinito no espaço. É o vácuo que cresce nas pessoas. O nada, o zero irremediável que só o interesse nesse jogo de rancorosos pode fazer adiar soluções. Hoje não conceitos de nada. Perdeu-se a personalidade das massas, das culturas e do fascínio titânico do mundo. Hoje as escadas dividem-se pela atitude e estão viradas do avesso, que os maus continuarão a ser maus, e os bons deixam de o ser. Generalizo, que era impossível contar a vida de seis bilhões de pessoas porque acima de tudo cada um tem a sua história. Porto de Abrigo, nem por isso.

Eu tenho.

Palavras

Por entre frestas e grainhas,
por entre o luar e as encostas,
quando fico debruçado, só oiço,
o mar, neste baloiço,
de pensamentos de enxurrada.
Por entre vistas e visões,
por entre os carris e o tempo,
entendo esse fogo que arde,
nesse beijo teu de final de tarde,
quando ficamos sós nesse solfejo,
como num porto de abrigo que te vejo.
Suspende-se no ar essa poesia,
dessa natureza de incandescência,
e no vagão-sol, ouve-se esse tilintar,
solene, indescritível do teu olhar.
Intimido-me, assim fico,
embasbacado, preso nesse fio,
e de ver-te ao longe e sentir,
e de agarrar com tudo o teu sorrir,
As palavras ficam, e tu as lês.

Em nome de ti

Dentro dessa alma, espelho,
em palavras dóceis, em cenário parco,
uma tremenda força de vontade de ver,
de passear contigo de barco.
E na póvoa, névoa no desembarque,
nesse céu que te embala o semblante,
sorri, que o descanso é divino,
feliz me conto nesta música ao volante.
Na Serra vejo o mundo,
e agarro-o com as mãos,
antes que caía nessa Silva e me aleije,
uso e abuso do coração.

Nunca perder

É ter na consideração, tudo.
As tuas palavras,
A tua personalidade,
A tua alma.
E olhar-te docemente, como quem chama pelo teu nome,
é nunca desviar a atenção,
nem desviar(-te),
que se tudo fosse fácil e apelativo,
fácil e funcional,
fácil e produtivo,
facilmente te perdia,
E minha querida, eu não te quero perder.

Existe sempre o

Não escondo esse olhar,
que construí,
me defini,
e sou feliz da maneira que sei,
e tudo o mais eram letras por descobrir.
E hoje, nessas alturas descabidas,
vou subir, Subir, SUBIR,
que depois de morrer, sorrir,
e a vida não espera por mim.
Se voltares,
quando voltares,
estarei ao lado de uma pedra,
com que construí o meu castelo.

Tudo

Não vou negar nunca um sorriso. Que outra ideia me passaria pela cabeça senão a que me conforta? A que mexe comigo? É especial esse sentimento. E redefino-a nesse traço curto de excepcionalidade, nessa imagem rasgada de elogios, é assim que eu quero ser. E demonstrá-lo, que nem sempre a garganta ilude alguém, e olha que muitos sonhos se desfizeram assim. E ter a certeza que amanhã quando acordar seja dia de pombas brancas, e me veja em reflexos vários nesse sorriso espelhado em luzes brancas de pureza, brancas de paz, brancas de neutralidade, que um sorriso é de quem o apanhar a quem fizer bem. E é estar nessa liberdade em dia sim, e permanecer na história como um ser grande que fez de tudo para unir a humanidade, unir a emoção de viver desmoronando esse muro da vergonha e do comodismo, que esse meus caros, morreu cedo sem fazer nada. E quem olha o nada com olhos de ver, digo-vos: nada é mesmo nada.

Vamos dar cor a isto

Pus as mãos nos bolsos e deixei-me ir nessa despreocupação. As ruas eram largas, iluminadas à luz dos nossos olhos, e íam entrando nesse espírito de dia bom, de dia óptimo para alguns. Maus para outros. Na rua os letreiros dizem tudo, e vive-se nessa autonomia desesperada e correrias em passos lentos, que o tempo obriga à contenção mas não forçada dos sonhos que esses morrem tarde, se é que morrem mesmo. E como as coisas crescem não é? Como as memórias encurtam-se nestes momentos puros de chuvas perdidas, que o vento gelado traz-nos como pequenas broas de mel. As ruas são grandes e já ninguém se conhece, e muitas vezes só as notícias de quem desaparece faz regressar ao mundo o tanto que elas foram - onde está a verdadeira vontade de amar as coisas, onde? - e como a história que foi, já não são. Vamos crescer um bocadinho mais, está bem? Vamos só dar uso aos anos com boas receitas dessa alegria pincelada a medo, dessa vitória pintada a sacrifício, porque embora pese o facto de quase todas as maneiras de viver serem conhecidas, que seja a parte desconhecida que nos faça ficar e iluminar com a luz dos nossos olhos as ruas onde a vida acontece.

A ti

Nas margens de qualquer limite,
a vida alcança o que puder,
e ficam-se pela imagens e pelas formas,
fica entre a vida e o morrer.
Quem não sabe e comenta,
os mesmos que não querem e fazem,
são as derrotas que mais temem,
são os que mais gostam dos que desfazem.
Os sonhos e a alegria,
o povo e o seu fado,
e sabes, os que mais tentam e não conseguem,
são os melhores, o mais amado.
E nesta luta de escalas,
do tempo infindo,
guardo apenas um segundo de ti,
que só por aí será tudo bem-vindo.

[jo, faz-me o favor de seres feliz]

Interpretações

Troca-se as voltas em palavras, e joga-se com as probabilidades. A derrota ou a vitória eram previsões e tu nunca gostaste delas. Davas-me citações de Descartes, do Sócrates e de Fernando Pessoa - eras pouco dada a um único sentido - e dominaste-me nessa falta que sentia, nesse STOP que ficou. E tu rias muito nesse cigarro infinito, nesse fumo sorridente que te queimava e desgraçava o corpo. Ontem eras quase a perfeição humanizada, hoje apenas não és minha. "Sou doida pela vida", e eu perguntava-me que vida era, estúpido, longínquo e nada perto de imaginar que era mesmo a sua. Coloquei-te na velha caixinha sustenida e acreditas que às vezes sinto-a bombear algo parecido com o teu nome? (estou a ficar doido pela "vida"?) Passaram-se anos, minha querida, e continuo a admitir que sou tão grande quanto me posso parecer, e que há sempre alguém que fica, me elogia, me entende e me marca. Essa pessoa podes ser tu que lês, por exemplo!

Determinação?

Resoluto,
Determino em cada pedra, quem a atira,
e quem a leva.
Eu não dou que não conto.
Absoluto,
é o saber que tenho,
que escondo,
que desejo,
mas não é meu.
E quem leva e sente,
atira também.
E nós magoamo-nos assim.

Palavras

Existem palavras que não cabem,
que não sentem,
que não contam.
Todas as outras és tu,
sou eu,
e os que não sabem o que dizem.

Estou aqui

Sentas-te no alpendre, encostas a cabeça,
e o sol aquece-te, reconforta-te,
nesse teu fechar de olhos, reflexão,
nesse teu abrir de alma, coração,
e não mais foste a mesma.
Elas escorrem-te na face escura,
engraçado,
nem o sol te ilumina.
E eu estou lá, sempre estive,
e as minhas palavras não se esgotam,
não se retiram,
não te largam.
Nesse amor, amizade, nesse amor que não sabes,
que quando guardo é assim,
quando quero também para mim.
E mudo, nesse caminho que te olho,
que te sigo,
admiro-te,
que ao mínimo gesto, sei que te moveste,
nesse pensamento que...
"-ACABOU!"
Corres nesse grito rotina,
São horas de cair em ti,
na realidade.
Mas sabes,
as estrelas riem-se de ti,
não ligues,
não olhes,
não sintas.
Não sabem quem eu sou.

Obrigado

Sufoca,
e faz rodopiar-nos sobre esse nó que nos aperta a alma,
até que estanque o pensamento,
a alegria,
o medo,
a vida.
E como se nunca vivesse-mos nessa ira,
de gente pobre por resolver,
de problemas sem juízo e ter,
como que o afrontamento que nos pára,
que o sol escondeu-se, esbatido nesse cinzento sentido,
O céu morreu.
E o hoje que não acaba, o amanhã eu não conheço.
Faz-me falta ser eu.
E possuir essas pessoas que andam de mãos dadas,
e no fundo ouvir(-te) sorrir,
nessa gargalhada amiga, como que inesquecível,
nessa vontade própria de romper as nuvens,
de romper a galáxia do teu pequeno mundo,
porque estamos tão longe?
porque vivemos assim desta maneira?
e penso, refugio-me nessa ansiedade má,
que não sou de beber para esquecer.
E sonho com o dia que no pleno dos dias,
haja as coisas certas, os momentos certos,
a vida certa,
porque por detrás do que vos habitueis a ver,
estou eu,
o eu que escreve,
o eu que faz,
o eu que não esquece,
que tudo tem limites, até os dias,
que tudo tem limites, até as pessoas,
que tudo tem limites, até eu.
E perco-me porque não inventaram o gps dos sentidos,
e nem sempre posso ser o mesmo.
E nesse leito de rio que corre veloz para a foz,
que corre,chorando, da foz para o mar,
eu choro e rio, veloz para o mundo que me viu nascer.
Que nas palmas que eu oiço em silêncio,
que nas palavras que me encantam,
que em ti que lês, a todos os que dão sentido ao que escrevo,
apenas vos digo: partilho-vos o coração.

Não quero perder mais

Não é o texto mais bonito, e as lágrimas também não o são. Não pedi à vida hoje que me pregasse a rasteira no dia em que tudo roçava a emocionalidade à flor da pele. E foi sofrível, inanimado. Não soube julgar-me dentro de mim e vivi nesse puro engano próprio fora de tudo o que me era limitado e limitei a decência, o buraco onde me pudesse esconder, e hoje, hoje o filme era de conformismo, desalento e incapacidade moral de responder, falar e agir em tudo o que era circunstâncias. E os acasos não aconteceram, e as perguntas sentaram-se ao canto da sala onde a luz nem sequer penetrava. Eu sabia, eu perdi e aceito a derrota. O culpado fui eu. E agora perguntei-me por quem sou, por quem ando e de que forma o faço. Perguntei-me o que penso, o que sinto ou se é devaneio. Perguntei-me que hoje não vos respondo porque de tanto esperar por elas, hoje que nem perguntei nada, souberam-me responder. Perdi, e aceito a derrota merda. E choro como choram as crianças que a mim nunca me ensinaram a não fazer. Ao menos liberto-me e danço nesse baloiço de penas, de músicas de harpa de sentinelas à custa. A minha vida é liberdade, é sorrisos e encontrões do desvario. São as gotas que também me caem destes olhos verdes azulados, são sentimentos nesse sentir concreto e abstracto que só quem sente sabe o que pode ser.

Assim me vou

Nunca saberei ver as coisas senão assim,
como se as árvores fossem vento que abanassem,
Mas o vento não abana,
e eu não sou assim.
E saber estar, nessa loucura,
que é viver por si só,
sozinho e contente,
como se o abrir da porta trouxesse o sol da manhã.
É de noite.
E tu, brisa que me acalma o sono,
e te deitas sobre o meu dormir,
sabes, penso no contrasenso de saber,
que em ti encontro o sabor de te ver sorrir.
Entro pela porta errada,
sinto-te puxar-me por quem sou,
e vais vendo o quão errado me deixo levar,
se me abraças, é assim que me vou.

Rio das memórias

Pousava sobre mim a neblina das manhãs sonolentas, e passava na ponte sobre esse rio das memórias, hoje vazia nessa maresia entristecida, nessas brincadeiras na lama esquecidas que nem a praia que morrera se escapa ao desenrolar (a)normal da vida. Hoje bateste-me forte no coração. Por mais que a década continuasse a ser dez anos, o tempo multiplicou-se e estendeu-me na areia que só na tua companhia fazia sentido. Partiste nessa viagem sem rumo, e eu contínuo a tua tarefa por aqui, neste vai e vem de dias e noites que só o segredo sabe que me cansa. E cansa-me pensar(-te), amar(-te) no vazio, desfazendo-me nessa lágrima que corre suada e vai morrer como morrem as ondas do mar. Mas não morreste, e guardei-te. E magoa-me guardar(-te) porque se coubesses no bolso andaria sempre de mão dada contigo. No coração, sirvo-te a varanda para o mundo que deixaste de sorrir. Contigo não havia rotinas e é assim que a vida vai dando as voltas.

Riqueza de espírito

Antes, quando olhava para as estrelas, esse amarelo que reluz era opaco e seco como o deserto. E sei-o bem, por terem sido demasiadas as vezes que o atravessei na esperança de descodificar a simples miragem. E nesse pano preto de fundo, como seria possível não ver o que a ilumina na verdade? Verdade. Piada. E redescubro nesse à-vontade as palavras que se libertam, que se corroem umas para as outras mas demoram tempo a sarar. Liberto-me nesse nervosismo premeditado. E mesmo que não esconda que sinto as coisas nas determinadas maneiras, não sou essa estrela que ilumina nem a fácil diferença em pessoa. Sinto e pronto. A intensidade é um choque na personalidade, que se estende das palavras ao costume, da vida ao coração, e quem não vê nas ruas o mundo que gira, como vai saber o que se passa fora de si mesmo? Só pode dar quem arrisca levar, quem se prende ao fiozinho da dignidade e na metáfora dos deuses e se lança à estrada. Não será a tristeza ignorância suficiente para auto-promover soluções? Nem se pode ser sempre feliz, nem sempre triste mas ambas carregam em si a mesma conversa: não querem descer mais, e implícitamente por mais insatisfeitos que sejamos, nunca pior. E as ruas têm movimento, têm vida. Não as camas ou a sonolência de espírito. E por isso, olhando-te de soslaio para não cumprir com a falta de educação, vou vendo por cima dos muros que me separam. Mas não é tudo, são apenas princípios.

De portas abertas

Suspirei, e o vapor desses invernos rigorosos soltou-se tapando-me a visão. Sei que voltaste a aparecer, toda a gente aqui dizia isso, e eu não fiz caso: "-Oh vizinha deixe-se disso, não vê que ela quer fruta madura?", "-Oh rapaz, toda a fruta amadurece.", dizia-me ela. E fui para casa e juntei-me à lareira. Ao ver o meu primo, perguntei-lhe:"-Como aguentas a tua vida, sempre calado e sempre no teu canto?" - e ao ver-me, sentou-se e olhou-me nos olhos:"-Nao tenho preocupações nem amores perdidos, não os tenho simplesmente. Às vezes acho que o amor engana as pessoas e as deixa noutra galáxia e a verdade é que a vida não está para se perder as pessoas. São precisas cá, não lá. E ao menos no meu cantinho não apanho o frio das desilusões, como tu apanhas, que às vezes até me dá dó rapaz. E lá tenho tudo o que é meu e espaço para pôr o que preciso realmente, e tu que espaço tens? Para a melancolia e murros no estômago? Para as lágrimas que devem-te deixar seco por dentro? Deixa que a vida corra, como eu faço, e olha que eu não me canso e vivo ao sabor dela. Comandá-la? Nunca. Quero que seja imprevisível e que tenhas as respostas e emoções que deve ter. Não como tu, que a tua organização é saberes o que vai acontecer a seguir. Gostas que te expliquem o fim? Eu não gosto. Áparte disso, vales a pena.". Fiquei abismado com a resposta, e assaltaram-me perguntas que nunca tinha feito. Chorei. Tinha acabado de receber o tal murro no estômago e ele tinha razão. Que era feito de mim? De que material era feito? Ele conhecia-me melhor que eu mesmo, não podia ser possível. "-Ah e já agora, no teu lugar, deixares que te fuja da mão a oportunidade não era a melhor solução.", "-Achas que consiga?", "-Arranja espaço para isso!", e soltei um sorriso de esperança. Quando saí de casa e olhei nesse frio que me arrepiava o mal já estava feito.

***

Abro a porta da igreja, onde todos rezavam, e ao vê-la, e ao verem-me com olhos fisgados para me bater, não me contive:"-Sabes, tenho saudades tuas!". Olhou-me com o mesmo brilho dos tempos da inocência. "-Não consigo evitar-te, merda! Onde passas, deixas rastilho desse perfume, dessa alegria. Oh! (suspiro) se soubesses o que tenho sido. Um nojo rapariga, um nojo! Não há nada de novo nesta terra - DEIXAM-ME FALAR? MATEM-ME DEPOIS, NÃO AGORA!!! - E olha, eu sei que me deves ter um pó desgraçado mas pelo menos deixa-me abrir a porta do meu desabafo que guardei durante muitos anos. Tu sempre foste aquela...", "-Aquela?", perguntou-me. "-Sim, aquela. Eu amo-te, eu...sei lá. Fazes-me falta, e posso até nem ser nada de especial. E sim, também não tenho o carrão que tem o teu vizinho que tu gostas muito, Grrr....de qualquer maneira completas-me e se tiver a mentir, estando aqui nesta casa, que Deus me castigue!", e as pessoas olharam para o ar à procura que fosse verdade esse castigo, mas...nada aconteceu.

Saí de rompante da igreja, de coração sobressaltado mas pelo menos com a missão cumprida.

"-David, espera!"

Quando o telefone toca

No único café onde podia estar, era o da esquina entre a Rua Junqueiro e a Avenida dos Libertadores em plena cidade natal. Não que não houvesse nada para se ver, ou sentir porque o mais novo daquela gente toda era eu e assim vivi até hoje. Revoltava-me que os jovens daqui se fossem todos embora, que deixassem tudo para trás em busca do melhor e do pior, e eu que nunca entendi o porquê, e por saber que a vida estava difícil ia logo feito lambão estender-me ao comprido nessas cidades gigantes que nunca dormem? Não, mil vezes não.
"-Sabes quem morreu?", e voltava à baila a pergunta cismada de quem só lia o jornal para ver quem tinha morrido. "-Não", respondi eu. Claro, por mais interessante que achassem que era ver gente conhecida que só aparece uma vez na vida (e nem sei como lhe chamar, já que faleceu) nessas páginas a preto-e-branco, achava que devia mesmo era preocupar-me com os vivos que esses ninguém se dava conta. Nunca fui de gostar de coisas previsíveis, reincidentes, e achei sempre uma completa estupidez ter de comentar o que à partida já se sabia as consequências: "-Lembras-te do João? A filha dele ao que parece vai ter um filho", disse-me a mim. "-Oh António, já teve 3 filhos.", suspirei. E esta era a verdade que valia a pena saber.
A minha casa era o meu pequeno mundo de 2 assoalhadas. Sem mulher, sem filhos, uma vida pouco dada à boémia e com um enorme sentido de responsabilidade. Era limpa, cuidada que o tempo ajudava-me nisso, mas o sentimento cá dentro, o cheiro pestilento a saudade invadia-me o pensamento num quase profundo pesar e mesmo que soubesse a tal consequência, não podia jamais viver na sombra do que foi e que não pode ser. O telefone tocava, deixei-o estar. Parecia impossível não ter uma chamada que me prendesse a atenção, que me deixasse estar aterrado durante largos minutos com um sorriso bem real, que não metafórico.
"-Tenho saudades tuas, David!"