Não te percas

Quando olho e oiço este barulho a mar, a chuva e à revolta das ondas, lembra-me os tempos de trabalhos sobre o joelho e de calçado roto, das correrias na lama e o chapinhar intenso na sujidade da roupa. Foi ontem que percorri a rua que dava à tua casa, e acreditas que tava tudo igual? Mais velho, porém. Mas senti-me tão feliz mas já ninguém me reconhecia - pudera, até tu me dizias que mudava a olhos vistos - e vi os teus pais. Estavam sentados à beira da estrada, à beira de uma vida tão rica que culminou na tua chegada e agora vêem-se sozinhos (e eu, que falta me fazes!). Falei com eles e choraram muito agarrados a mim, e não me quis conter, sinal que estava a celebrar a vida que também tu me proporcionaste. "-Tens sabido da nossa filhota?", e tive de responder "não" minha querida, por mais magoada e incrível que fosse a tua ausência. E não mais houve conversa, e cedo percebi a presença deles ali, à tua espera. "-Volta catraia dum raio, onde te meteste tu?" oscilavam eles numa espécie de exaltação da tristeza do que foi perder-te, e nem sequer para sempre. Hoje tens idade para dominar o resto da tua vida, mas aborrece-me que tenhas esquecido tudo, tudo mesmo, quando achei que brincavas com toda a gente. E agora diz-me o porquê, por mais voltas ao mundo que possa dar as minhas palavras, diz-me porque te foste embora? porque deixaste as coisas mais importante? Tu foste com um bilhete de avião sem destino, nada mais merda, e não te deu vontade de voltar? Que insensível, que estúpida que tu foste em tornar egoísta todas as palavras que achava de ti brincadeira. Tenho a idade que tenho, mas nunca mais fez sentido a vida sem ti, já viste? Num momento és aclamada do acto mais impropério, noutro és como que a santa que todos rezam. "-És a nossa única companhia, que o mundo já desistiu de nós!", dizem os teus pais a mim e não paro de chorar. Vês o que fizeste porra? Volta, volta depressa.

Ilusões

Borbulho por dentro. Nesse desafogo, nessa correria, nessa loucura infernal que me percorre o sangue nas veias, em alta rotação em súbitas voltas e contravoltas, rodopios e joguinhos de sedução. Olha-me, como se esse olhar quente e vaidoso me atraisse da cabeça aos pés. Toca-me a alma numa ponta milionésima dessa chama que emanas, desse fogo que susténs em cada pedaço teu deixado ao arrasto em ruas por onde passo. Sinto-te como se nada houvesse além do sol posto que se põe em todo o lado, em cada luz que se acende na metrópole, em cada lua que não são só quatro, em cada caminho, em cada pedra, em cada monte, montinho e montanha, em cada décima da raíz infinita do número mais complexo que nem eu nem tu conhecemos. Vejo-te particularmente, como se fosses àgua no deserto, - e olha que tenho sede -como se fosses notícia que só eu lia, relia e folheava numa página só. És a graça das piadas, e o sentimento nas emoções, és a premissa das filosofias e a maior e mais bonita rosa (como a dos ventos da geografia), que me guia, que me dita, que me explica e suplica, que me falta em cada gesto necessário à sobrevivência, e ao triste fado que todos pensam ter. Aparte disso, fora de mim é nada para o que vivo por dentro.

Puro

Caía docemente sobre os ombros esses flocos de neve definidos como pombas brancas, que esvoaçam nesta noite típica de Inverno. Vou deixando em cada pegada o rasto da pessoa que sou, e a conhecer-me, todos saberão onde fui e não me perderei nunca dessa distância física das coisas. Por dentro, em cada passo, renasce esse turbilhão e mordidelas nervosas no lábio que pede sensatez e sobriedade em cada acto puro do que faço. É o frio que acalma esse borbulhar quente das emoções, que nao desculpa esse tremer exacto de cada poro da pele e não sente nada nem ninguém. Deixo cair, nessa lentidão desleixada, o branco da camada que se formava no casaco e no cabelo enregelado. Era tudo tão puro, nem o verde das árvores se notava, nem o castanho do caminho de terra, nem o laranja dos telhados ou a cor das casas. Branco, branco e mais branco como se todo o mundo fosse feito de algodão (como as nuvens) e fosse puro, imaculado e objectivo. O céu, esse, continuava a ser azul.

Vai e vem

Peguei docemente, tal a fragilidade,
Era rubi, e brilhava no escuro,
E a cidade que separava o mundo,
Idealizado era, mas tinha um muro.

A tarde escureceu, uivos de lamentar,
A noite traz saudade,
E também o luar,
E que escondeu nos becos a verdade.

É nessa luz, que todos seguem,
Virou estrela sem ler nem escrever,
E guia e não sabe o caminho,
Guiam-na livremente sem saber o que fazer.

Rasgam a pele à força do aperto do coração,
E fazem de ti, infortuíta, o anjo que cai,
E saber que tem-se razão quando se diz:
"Quem vem, também vai".

Pensamentos

É de peito aberto que vos abro as portas ao mundo que me conheceu. Hoje, na calma do que é ouvir o bater puro do coração, num olhar sincero e iluminado perante todo o desespero que contorna as rotundas da memória, num gesto terno e verdadeiro aos tantos que vamos aprendendo por aí. Abro-vos neste cantinho só meu, que admirei-o durante anos como se fosse membro mais novo da família que construí. Acostumei-me a esse virar no modo de vida e a acrescentar pontos em tudo o que me fazia tremer e até hoje consegui fazer das tripas, coração. Perco-me no sono, de cabeça encostada junto a esse Tejo bravo, nessa chuva divina, fazendo de mim profundo conhecedor do que traz à tona e refaz toda a minha maneira intimista de viver. Penso muito. Sonho muito.E já chorei mais. Não faz sentido o parafuso que nos falta ou simplesmente as palavras que caem em desuso. O conforto é muitas vezes o ócio que a vida demora tempo a ultrapassar. E ninguém se preocupou com isso, com as ínfimas coisas que levam às macro-qualquer coisa e nada se sustém no ar só porque se lança um olhar confuso no objecto-alvo que se quer. Sou em algumas coisas o desperdício, e sei que o sou por saber demasiado os limites da fera e do raio de acção. Sou livre que a expressão é democrática, embora não sem antes ser a sodomizada pelas bocas absurdas de quem as manda porque ter a boca fechada é talvez sensatez ao lado dos momentos que não trazem as palavras sentido da realidade. É preciso mais, e fui sempre de fazer as coisas assim. Abro os olhos para que vejam que aqui estou, que aqui existo e que sou uma pessoa normal. Que não vejo mácula em tudo o que é rancor e muito menos inveja a quem a tem. Sou quem escreve o que me vai na alma, que a força nos dedos e no pensamento, que nas feridas ou devaneios do coração persistam a grandiosidade do que é a língua e a cultura da minha amada pátria. Costumo inventar e hei-de morrer com esta: ter muito ou ter pouco, antes viver por mim que viver por outro.

Bradado em gritos

A vida meus caros não é o total desvirtuosismo, a total desavença ou o completo disparate. A vida consome-me da mesma maneira que a conceberam por mãos alheias e NADA nem NINGUÉM tem o tremendo direito (se o direito fosse físico) de alterar na sua fisionomia na mais pura estupidez de viver. E mais digo, porque dito isto na noite mais chuvosa e fria que tenho da memória curta do céu, que a INVENÇÃO e a SUBVERSÃO são o ESCÁRNIO que toda a consciência pode conter, tenha ela o paradeiro que tiver que a vida é intemporal e os dias, organização das pessoas. E é no NUNCA que a luta desaba, escarra para o chão em DESRESPEITO para o que é no mundo o mínimo e indispensável acto CONTÍNUO da vergonha de ser gente porque relação entre pessoa e pessoa, dá pessoa para cada lado que o sentimento é do coração e de mais nada. Perguntam-me: o amor para ti não significa nada? A vida para ti não significa nada? Significa sim, que continuo a ser um de vocês, obstante de ser diferente de todos os outros, porque em mim resta a oportunidade, aos outros a minha palavra. A dureza do que se escreve é arte de quem SENTE, e não uma coisa realmente inconsequente.

Pagar adiantado

É nesse cheirinho de terra molhada que trazem à tona vagas sinceridades. Quando eu antes dizia que eras ideal, essa idealização que já vem dos tempos da Grécia antiga, hoje já és parte mobilada da casa onde vivo. Seja onde for, de que maneira seja. Não preciso de olhar-te e observar-te como fazem as pobres velhinhas que ostentam o poder de observar sem manhas e dessa forma pejorativa que se passeiam inocentemente pelas ruas - pior as que não saem do pequeno quadrado da sua janela - porque visto e posto bem as coisas. se é real tudo aquilo que achámos ideal, era escusado haver luta sem adversários. E em ti era o cabelo, era os olhos e os óculos, era a roupa e a maneira de agir, era os pensamentos, devaneios e formas de sentir, e tudo porque o tudo implica não haver mais nada, tudo em ti era flor que quando cheirava, não era somente a flor que me subia à cabeça mas sim toda a estação em que elas pudessem emanar-se por aí. E o som, minha querida, e todas as mesquinhices, picuinhices sobredotadas que só de pensar apenas envolvia o sacrifício de lidar e saber mastigar as coisas. E nessas, bem sei o bem que estou por estar só: que nas más companhias predomina o vício de algo indefinido e eu gosto de tudo diferente e, embora definido, este tem preço e eu posso pagá-lo com a vida.

fotografias

É na história das que tiramos,
e as palavras que ficam, ficarão,
é a impressão que levamos delas,
essas fotografias do coração.

Silenciosas, vaidosas e duras,
são da idade das coisas, do tempo,
é vê-las e aproximá-los,
"Os" momentos com acento.

Vai nesse instante que pára,
e guardamo-la na gaveta,
deixo-me levar, estou cansado,
no peito, que vai latindo, dorme comigo predilecta.

A fotografia que te recorda,
passa os anos, não a moda,
ensina-me a calçar a bota que não me cabe,
que gostar, que se goste de ti toda.

E o sorriso tirado, fica,
é livro que se lê e guarda-se,
e na imagem que te guardei,
vejo-te, delicio-me e abraça-me.

Esperança

É de tão longe e tão perto que distancia tão pouco a normalidade do coração. Grito, bafejo, estico a mesma corda que une as pessoas, que as une num pensamento facilitado e comum e não as faz perder. Não se aprende e desfaz-nos nessa emoção incontinente, e tudo é tão diferente, e tudo é tão inocente, e tudo é tão incapaz, e tudo é tão descabido sem sentido de vida, sem noção da realidade, sem a consciência, sem a alma que sempre se trouxe, sem a filosofia que a alimentava em tudo o que era lutas imorais, contraditórias e sobretudo silenciosas para que ninguém soubesse a visão nefasta da vida de cada um. Nestas coisas de brincadeiras todos a julgam, todos a mandam calar porque perder é perder mesmo e ninguém quer, que o conceito estende-se à completa escuridão neste mundo sem nada, sem cultura e sem pessoas. Mas sabem, a esperança, dizem, é a única que nunca morreu. Que procrie livremente que o vazio nunca foi nada.

Tinhas razão Pessoa.

Em cada palavra há um som que se propaga no vazio, e creio eu estar certo quando metade do que se diz é nada do que se possa ouvir nas perfeitas condições. Há falta do assunto, da conversa e da criatividade e as pessoas são arte por delapidar. As pessoas têm no seu profundo algo que não compromete a verdadeira verdade ou sobretudo a causa maior de se conhecer por inteiro, porque sê-lo é ainda não ser e como disse tanta vez, o que não é não se pode ter em conta a menos que haja em seu redor um ribombar dos tambores em sinal de merecimento de alguma vitória individual. Em cada palavra há um génio que se solta e outro que nem génio é, e por isso sei que o virtuosismo é uma arma que se estende na guerra que lança o pânico e a morte entre consciências do mesmo futuro, de futuros diferentes ao mesmo tempo. É presumível e por vezes incapacitante o que as palavras conseguem determinar, na sua força, na sua garra, no seu crer e sobretudo altivez, e por ela deitando abaixo o que na vida de cada um dificilmente se atingiu: hoje é fácil deitar alguém abaixo, e cresce o número em desproporção com a gente estúpida de uma inocência enganada e ignorante que não tem mais que fazer que martelar o prego que, ou não existe, ou não precisa de ser mais martelado. E a palavra existe, persiste, afaga e magoa e por mais que haja noção que estamos a perder um tesouro só nosso e de cada um, meu caro Pessoa, a nossa língua é mesmo a nossa Pátria.

Chuva que cai

Cada gota a sua musicalidade,
Preenche-me a atenção neste e naquele segundo,
(apenas imagino, que não abri a janela),
E atinge-me, penso, que não acordei ainda.
"-Fazes o favor de seres feliz?".
Abro os olhos à claridade que se esbate no cinzento do céu,
Abro a janela,
Molho-me nessa razão aparente,
E escuto-me no murmúrio do dia,
Abafado e quente,
Correndo, afligido no cabelo a chuva que cai,
Sigo-a como se gostasse do que não gosto e...
"-Cala-te que há gente a querer dormir!".
Tentei, obstruí-a e apenas sou feliz assim.

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Ouvia no alpendre essa chuva miudinha a cair de lado. E o uivar triste do vento que batia com violência nas portadas da tua casa. Cinzento o dia como fora toda a tua vida, nessas nuvens que passavam ilimitadas como uma tela de cinema que, sentado, vou "admirando" de olhos baixos, sorriso tapado pela sobriedade das tuas palavras. Eras muda nestes dias e surda para me ouvir porque sabias que a minha voz trazia-te desconforto por não quereres sol quando chovia. Confesso que foi a tua teimosia que não me fez perder a cabeça, mas envelheci como se a cadeira baloiçasse inteira até fartar e nada mais houvesse à frente senão puxar a corda do passado atrás de mim. A chuva era muito mais intensa e eu estranhava quando tu cantarolavas, e tanto te ouvi que começou a fazer sentido ao som que vinha lá de fora - estaria a ganhar sentidos? estaria a ser dominado por qualquer força anímica completamente fora de mim?. Quando te levantaste e olhei para ti, trazias no rosto a rotina descabida, o cansaço do mundo, as insónias de tudo o que já passaste. Mas não perdeste o sorriso, a esperança de quando virares as costas e as voltares o sol entre resplandecente por entre frestas e espaços do que tu vês, porque podes ter perdido a minha voz que não ouves, e eu as tuas palavras que não vejo, mas não perdeste visão para tudo o que tu és e para a força que sempre tiveste. E muito menos o meu doce beijo que te dava todas as manhãs. Eu? Eu apenas não te perdi.

Voltou

Voltou a sombra, assombrei-me,
Nessa correria desenfreada, parou,
Era apenas isso que me movia,
Dava-me raça ao que sou.

Onde a beleza em tantos anos,
Volta e é sempre a primeira vez,
Como se nenhuma palavra fosse querida,
Num acto estúpido de lucidez.

Voltou, não resisto,
Encantado estou por tanto ver,
E estes olhos que nunca me enganaram,
São o alimento que apenas posso ter.

Não compreendo, e tanto tempo volvido,
O que se passará, eu não tenho como saber,
Sou tanto e tão pouco e não morri,
Volta sempre e voltarei sempre a perder.

Existo

O que sinto afinal? Fervura em cada poro meu. Sinto esse borbulhar de emoções fortes, que a muitos é a realidade, a outros oportunidade. Esse estremecimento que faz ranger cada osso, e admirar com um olhar expressivo cada linha da vida. Sinto que o pólo mais do que sou desligou-se nessa réstia de segundo miserável, e ficou o negativo neste circuito aberto, como se despisse as únicas peças de roupa e desaparecessem sabe-se lá porquê. Cabisbaixo e de ouvido atento à música vou contando os palmos de olheiras que as insónia psicológicas me trazem, revelando como na maré vazia os restos que se deitam fora e o mar vai escondendo. Sinto que há dias de chuva que não tem beleza que se pegue com as mãos, que o tempo é feio, rude, pobre e não lhe fica nada bem na fotografia, porque a cama serve-se do prazer de quem tem sono, não para tapar o tempo das necessidades. Sinto, porque sentir é existência e eu não paro de pensar nisso.