Memórias
do tempo e do espaço,
das pessoas e da sua tez,
É o barulho quezilento dos passos na calçada
que eu oiço,
que eu reparo e tu não vês.
Enfadonho, gritara ao longe,
em surdina, encerrado em si,
que olho ao primeiro dia de cada mês.
Que significado tem o existir?
que não seja dignidade e viver,
as palavras que te digo e não lês?
Que neblina traça o caminho,
no conhecimento do teu espaço,
que nem um passo dês?
Quem segura o fio pendente do teu coração?
se o uso que dás ao manuseio,
ou és presa de quem o fez?
A cidade esconde-se na memória,
é triste demais neste fado que se canta,
e tu ainda nos teus nadas, nos teus quês?
Guarda a memória no bolso que hoje não te serve de nada.
Acordar
Parecias tão singela no dia em que te vi. Eu não conseguia dizer-te uma palavra, e nesses centésimos num olhar mais profundo, as minhas mãos tremiam, a voz embargada nada dizia, e não sabia o que fazer - estúpido, estúpido, era o que mais afirmava - como se fosse sempre a primeira vez. Das tuas palavras saíam ruídos de fundo, perdidos como eu, que me perdi em ti e nos teus gestos de menina imperdível. Conseguiste que o meu medo de te perder me fizesse perder o chão, o sentido, a responsabilidade e as poucas coisas que conseguia fazer. Copiei os teus estigmas e a tua altivez, criei oportunidade no sucesso que tinhas e subi os mesmos degraus que tu - não permiti que fosses sozinha - nesse par de mãos dadas, nesses braços que não paravam num abraço em cada esquina, e a vida era outra e muito de si contente. E esse tempo também singelo não distinguia o dia da noite, também ele perdido como eu.
...para a vida...
Dúvida
Consciência,
Consistência.
Divide a imaginação,
Emoção,
Libertação.
A dúvida transforma,
Deforma,
Conforma.
A dúvida é ignorância,
É conhecimento,
É tudo o que somos,
E fomos.
Verde esperança
Era uma janela para o mundo,
Vagueei no silêncio próspero,
Fui até ao fundo.
Era uma estrada tingida de verde,
Não tinha fim,
E na sua voz saíam flores,
Agarrei-as, sou mesmo assim.
Guiei-me nessa escuridão risonha,
Calado e sombrio, sorriso e calafrio,
Como um tolo que não teme,
Nesse quente de estação, o frio.
Bem sei, nessas paragens da vida,
Que esperanças quando vão, muitas não retornam,
Mas ao coração que cansou,
Tornam e tornam.
Mulheres
Não é um posto de vida, é mais um livro de experiências. Ninguém compreende, e ser determinado no sexo que tem, isso sim, é um lugar que parece que tem sempre de ser julgado. Não me julgaram, nem o desabafo aqui perante o auditório mas a verdade diz-se sem piedade nenhuma porque qualquer motivo que tenha, o valor é sempre o mesmo: É difícil lidar com mulheres. É difícil no mais complexo que possam ter – e que caixinhas de surpresa são – sem que para isso tenhamos que sofrer e verificar que hoje em dia enganá-las nunca, se bem que nunca foram as minhas pretensões. Contudo sempre errei (essa de aprender com os erros...) ou se não o fiz, fui estranho o suficiente que não o tenha percebido mais cedo. E lá se contam os “tarde demais” num dia só. Se um dia eu conseguir chegar ao ponto de compreender minimamente a perfeição delas, tudo o resto na vida é mais fácil.
Obrigado
Vivam
Amem
Poeta
Completo para quem o lê,
Sente e vê,
Completo por quem é e se dê.
Dê o que tem pelo culto que é,
E o poeta se sente,
Nas letras que o perseguem e na história que conta,
Delinquente.
Delinquente, como um vadio na rua,
Que preenche as veias com palavreado,
Um poeta não vive das palavras,
Precisa de ser amado.
Amado que não peça ao acaso,
Amar por sentir,
E andar de olhos meigos pela rua,
Tolo e sempre a sorrir.
Não pensem que ser poeta é ser diferente,
E ser poeta é ser o escárnio da sociedade,
Porque quem não sofre por escrever,
Tudo o que é fácil, acaba-se por se perder.
Ao rio onde cresci.
Profundíssimo
senão o teu sorriso e o vento a correr por ti,
é lenta a tua marcha, a rapidez que alcança o meu coração,
senti, amei e vi.
Vi nos teus olhos lágrimas de impressão,
e no branco do teu sorriso, o brilho,
jurei-te o meu reflexo e fui outro,
e como tu, cintilo.
Era um relâmpago e vi-te no alto,
largaste as mãos e voaste,
segui-te como quem segue o atento,
já no chão e não te aleijaste.
Peguei-te pelo braço, desviei-te a franja,
cantarolava a música de fundo,
e a aproximar tocavam-se tambores,
Acorda desse sonho profundo.
Água que corre
Outros olhos
E antes de tudo começar, tudo existira,
Tudo era afim, como uma pedra que se atira duma falésia.
E nessas caminhadas de Outono, nesse cheiro de chuva molhada,
Profundo,
Como os dias que quando passam, passam,
Suspira,
Como se fosse a enésima vez,
Que quando te olham são outros olhos.
E não restei na dúvida de que fui menos e mais,
E que as flores também nascem quando outras vão morrendo,
Enquanto vou sentindo, amando e conquistando,
Aos outros, estremecendo.