Silêncios escuros

Nestas coisas de escutar o silêncio, de ver sobre o mar umas asas que caíram, é talvez assombrar uma casa que sempre foi farta de luz e os fantasmas, outrora brancos, eram agora vultos negríssimos no alpendre de qualquer corredor a ranger. Muitas vezes, nas memórias dos tempos, encontro rostos encrustrados nesses mármores reluzentes em contra-luz desesperados, e os ponteiros param, os morcegos num desespero causal fogem desalmados por ali fora. E toca o sino.Silêncio. Como seria encontrar lá fora o luar que não recai sobre o telhado do Mundo? Como seria ter na mão o poder de mudar, seja lá que mudança fosse?E nada seria igual e se comportaria de maneira tão diferente. Se existe fumo, esse fogo que dizia-se invisível deixou de o ser e não vale a pena recuperar essa mera dignidade de expressão. Ou é...ou não, e não desculpem as questões.

Não existe.

Os olhos que te olham são lágrimas,
E têm a tua forma,
De pensar que o rio não corre,
E que brotar o que sinto demore,
Neste quente, sou todo água morna.

Neste vazio e pontapés no ar,
E as pedras que a atirar, no nada acertam,
E na tua forma de ver, no meu sentir,
Queria tanto poder rir,
Destes pensamentos que vagueiam.

Isso, mostra nos lábios o sorriso,
E o espanto meu que te eleva,
E no aperto que tenho,
De ir a lado algum e quando venho,
Alguém, com o pouco que me pertence, o leva.

Apertei a mala nessa viagem,
E descobri-te,
Nesse sonho que não passa,
Nesse dia que não chega,
Apenas lembra-te: mais um dia que senti-te.

Fluí

Um pedaço teu e o céu caía,
Nessas mãos de seda que nem sei,
É pura essa alma e destemida,
Que na verdade só eu sei bem.

Essa gota de suor, em Invernos escaldantes,
Faz navegar como um arrepio, brilhante,
Selar forte com um beijo,
E a respiração ofegante.

E se só as nuvens fossem de algodão,
Não havia sonhos por descobrir,
Que nessas vidas em que tudo passa em vão,
Não havia vontade de ser nem de sorrir.

Na minha que tantas ventanias passaram,
Na minha que soube ser o que sempre fui,
Na minha que em orgulho,
É um mar que fluí.

No escuro da noite

Nessa fraca luz de lampião pobre,
Destoavam os olhares em naturezas mortas,
Como se os lugares vagos fossem esconderijos,
E as ruas deformadas e tortas.

Caminho entre as falhas da calçada,
Pedra sim, pedra não,
Não vejo mais do que esse silêncio escuro,
Nem tão pouco as formas do coração.

Se o sinto bater, é como um fio que prende a vida,
Que nos pende em ouro pelo pescoço,
E vai dando ao frio um aquecer fugaz,
Que não deixa chegar ao osso.

E nesse achar incaracterizado,
Vou andando como um devaneio,
E se me esconder nessas nuvens o que sou,
Nem sou, nem serei,andando sem meio.

Correr a pensar

O cansaço de correr cansa menos que o de pensar. O pensar é mais polémico, volátil e mais rápido. Correr ocupa espaço físico em qualquer lugar, obedece às leis do movimento e da pura física que se estuda: o pensamento não. Obedece a filosofias que vão além da disciplina de vida e atingem distâncias que ultrapassam o possível, o imaginário. Queria cansar-me como me canso por dentro. E olhar para fora, como o suor que escorre e nunca para dentro como quem cala e consente. Gosto de percorrer o infinito das coisas e desgastá-las ao ponto de saber o sentimento por elas, mas as pernas já não são assim, por correrem o substancial em busca do tempo ideal. Se o problema fosse tempo, quem se sentiria mal se este curaria tudo? E cura se o que está cá dentro também se fosse embora. Mas é no reconhecimento que vemos as histórias que contamos e as mudanças de pele que vamos tendo. Ao contrário das pernas, o pensamento não se cansa com a idade, não refila e trabalha sem o tostão necessário - elas sim, às vezes pedem mais ao completo acaso. E se nessas vontades próprias houvesse comunhão, teria limpo o cadastro que desfez muito dos meus dias em pedaços de papel que não valiam mais do que lixo.

Acontecer

Hoje desfiz-me em objectivos cumpridos. E podia traçá-los em qualquer vista e cheiro a maresia que travei pela frente, ou na respiração semi-cortada, ou na versatibilidade de um gesto atónico perdido nos poderes do destemido e enfrentar os mostros da cidade. Fui sem rumo com os bolsos cheios de vontade de descobrir o encoberto por anos que não pude ver (ou tive a vista tapada). Os carris rolaram com a rapidez do vento, atravessando as pontes e túneis como se a segunda ou terceira, fosse sempre a primeira vez. Voltarei, sim, voltarei para descobrir muito mais do que pude pensar e imaginar que nas ruas da amargura também há esperança, que nas ruelas e íngremes escadas são feitas dessas calçadas e degraus que nos levam longe e que o medo tanta vez nos tira o pão da fome. Chego, e o mundo é igual ao que deixei. É meu e isso deixa-me satisfeito. E senti uma vez mais essa alegria destemida de ter de ir e voltar. Mas sabem, há coisas que não chegaram a ir e muitos menos a terminar sessão. Nesse amparo de quedas fortes, não é preciso que sejamos bons ou maus...que apenas façamos acontecer.

Sê tu mesmo!

Sabes quem és?
Se achares que sabes o que sabes,
É mentira,
Porque se sabes, alguém antes de ti soube,
E saber sabendo, não é mentira.

Em tudo o que pesquisas,
Veio da ignorância ancestral,
Alguém soube e demonstrou,
E tu lês e sabes,
Se não sabes, inventas,
Se não sabes inventar,
Atormentas.

Se fores original és autor,
E pagam-te para usar o que é teu,
Mas não há dinheiro que te pague a vida,
Muito menos a sabedoria,
De quem sabe e nunca viu,
De quem ganhou e mereceu.

Ainda te vejo

Que as fases complicadas sejam certas, sabidas,
Não rotinas,
Que te deixassem nesse sorriso que lanças ao rio,
Deixando-te doce e exposta,
Demonstrando-te com vagar e brio.

Era no preto que vestes,
Que o sol te reveste do brilho que já tens,
E de cotovelo na mesa e palma da mão, encostado,
Admiro-te e fixo,
Essa beleza que se estende, tresloucado.

Abres os braços, numa pose de semblante,
Deito-te um esgar de espanto, supus com a cabeça,
Deitas-me esse olhar que fita,
O melhor que tenho e soube ser,
Nesse dia, acredita, foste a mais bonita.

Imprevisto

Não evitei que na tarde de todos os imprevistos, voltasse à tona a essência de tudo o que foi. Desprezava, em linhas separadas, o horizonte com o mar revolto dessas ondas de vaidade que percorriam o gelado caminho de encontro à areia, marcada pelas simplíssimas verdades que deixaram de ter sentido, vincadas nos olhos carregados da triste capacidade de sobreviver.E num sentar cabisbaixo sem aparente noção do espaço que emana num sabor estranho a liberdade condicional. Parei no tempo, parou tudo. Como se o compasso da música, que vai soando melodias, que distanciam o tamanho do corpo em faíscas e que vão desfragmentando o pedaço que falta, flutuando como que um barco que deriva no mar.

Água calma

Na água que escorre nestas brisas,
límpidas, azuis, condescendentes,
imagens que saem distorcidas,
saem num sorriso entredentes.

Vi nessa vida de conceitos,
a ira e a lucidez,
num momento que passa,
fica e vai, e vejo esse brilho, essa tez.