Ás companhias da vida

Hoje, num momento solene,
Penso e penso e não me queixo,
Porque sei que podemos cair,
Mas não, eu não vos deixo.

4 anos, Obrigado

Aos longos quatro anos de "Verdades Inocentes" vi de muito e vivi de muito mais. Transpareci destas letras um vulto mais que original e real o estigma e a solidez do caminho que percorri no, e já o tinha dito, maior momento da minha vida. Foram quatro anos, e já lá vão os meus saudosos quinze anos de vida que comecei na brincadeira e sem saber o que dizer. Mas dizia. E tudo o que pude construir aqui, pude dar a quem lê e as vezes que consegui emocionar(-me) eram razões suficientes para crer na brincadeira que de súbito inventei. Hoje guardo, além das palavras, os muitos leitores, os muitos comentários e as visitas que atravessaram o Mundo para levar a Língua Portuguesa, e levar o sentimento humano aos lugares mais recônditos da Terra. Nunca ganhei um prémio nobel e creio eu que essa seria outra brincadeira, mas ao ver um lote tão grande de novos escritores, novos talentos e deslumbrar-me perante tanta qualidade, eu sei e digo: estamos no bom caminho. O blogue veio trazer ao Mundo uma forma de intimar a nossa vida, de resguardar o silêncio dos gritos que a nossa alma por vezes não se cansa e sobretudo veio dar a conhecer as pessoas que mais ninguém quis, àquelas que não as quiseram conhecer. Por tudo isto e por muito mais, o meu terno e sempre bem dirigido Obrigado.

Por sinal, no dia mais triste do mundo da música, RIP Michael Jackson.

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Vivam

Fui um devaneio entorpecido é verdade, e demonstrei-o no vigor das palavras. Nem sempre quis que o sol entrasse pela janela, e muito menos o vento segredado. E fui nesses dias de primaveras longas a réstia do som abafado pelas palavras mudas que chocavam desobedientes e riam-se da brincadeira sem grito que as pudesse calar. E nessas horas que perdi o sentido da virtude e o traço da personalidade, foram horas que não fui ninguém e não o quis na verdade: apenas fui um Deus auto-venerado. Aprendi a ser alguém, julgam-me? Aprendi mais um bocadinho nos intervalos das marés e fui nesse sorriso patenteado clamoroso que ancorava nos mares mais bravios dentro da costa que alcançava. Creio na esperança que a vida continue a ser tão boa de se viver, e que nada absolva as memórias que nos servem de tudo, e as ondas que nos trazem o mar das coisas que não queremos esquecer. Vivam.

Campos

Palpito entre o sorriso das nuvens,
E oiço o cantar.
Da ilusão do sol, dos olhares recortados,
E das imagens soberbas.
Vislumbro na altivez da luz,
O carregado do carvão desenhado no papel,
Soletrado.
De palha ao canto da boca,
Estremeci.
De mãos cruzadas debaixo da cabeça,
Sussurrei.
Fecho os olhos ao vento,
E o sol quando se pôs, adormeci.

Vergonha

O menino levou uma pedra,
E ninguém o segurou,
Fez-se na noite, em guerras memoriais,
E o menino que a levou, não se esqueceu, apenas nunca se lembrou.

A pedra, de vértices afiados,
No embate, estragos fez,
E o menino nem se preocupou,
Porque já não era a primeira vez.

As lágrimas que brotou,
Acompanhavam-no no seu sofrimento,
Debaixo dos seus cinquenta graus,
Faminto, nem havia vento.

Nas áridas e impenetráveis areias,
Já nada se podia fazer,
O menino sabia, o menino já havia pensado,
Iria morrer.

Olhou para o lado, na imensidão que alcançava,
Via mal, e no seu corpo definido tudo era definitivo,
E lá fora, onde os cães era mais bem servidos,
A vida era diferente, e para o menino mais instintivo.

Deitou o seu corpo desnudo,
No cobertor feito da guerra, das pedras e da vergonha,
Fechou os olhos e sorriu,
Imaginou que lhe levava uma cegonha.

E a sua alma, que ia longe,
Ia mais feliz, pronto a rejuvenescer,
Mas acreditava que a vida é tão distinta,
Que a uns não presta, e a outros não há de comer.

Toque

Percorro nesse poro aberto, uma fuga no teu respirar,
Sinto o pulsar,
Sinto-te.
E esse teu gotejar,
Que mil temperaturas derretem,
Derreto-me.
E não mais consigo falar.
E é ver-te, curvilínea,
Arquitectada,
Que nem os sonhos atingem,
Nem eu.
Nem Ninguém.
E nos olhares, assombrados de espanto, aflijem,
Alcançar-te.
E ao ligeiro toque, mesmo subtil,
Ansiedade,
Fascínio,
Loucura,
Gula.
E o mundo jamais voltou ao normal.

Desabafo

O blogue, mais ou menos intímo, sempre serviu o desmazelo emocional em que me vi variadas vezes. A minha vida foi pautada de altos e baixos e até aqui ninguém pode dizer nada porque nada se fez, nada se faz e nada será perfeito, excepto reconhecer o sexo dos anjos que creio eu estar ainda no segredo dos "deuses". Arrependo-me de ter aberto a boca muitas vezes, e todos reconhecem isso naqueles dias em que não há humor suficiente sem a capacidade errónea de brincar com coisas que afectam aos que a ouvem. Não, não me vou seguir dessas velhas máximas, dessas vicissitudes parvas e ignóbeis que presenteiam as pessoas de uma possível mudança de personalidade. Sabem o que é uma crise existencial? Não são os problemas que afectam assim do momento para o outro sobre que roupa vestir, que calçar ou comprar. É mais possuir algo tão estranho e derivar vezes sem conta uma vida inteira, e achar que não se faz mais porque não possuímos a resposta e acabamos miserávelmente por perder metade do que pudemos construir. Porque os dias nem sempre são normais, encarem e encaro isto como uma forma de desabafar. Não há uma voz que me liberte em sons, apenas gestos nos dedos e aqui estou, neste mero local que me serviu os quase quatro anos a companhia que tantas vezes perdi, que não tive e tentei ter, Verdades Inocentes é o meu verdadeiro cão de estimação. Sabem que mundo é este? "Toda" a gente ama, mesmo que não se saiba o que é amar; "Toda" a gente sofre, e mesmo não sabendo o que é sofrer; "Toda" a gente é gorda, e muitas vezes nem têm em quantidade quase nenhuma; "Toda" a gente fuma e bebe, e nem sequer sabem ter noção do que pode causar e ainda lhe chamam divertimento; "Toda" a gente faz amor, porque sexo, quando se ama e não sabem o que é amor, não existe; Toda a gente erra, e muitas vezes nem sabem o que é errar; "Toda" a gente sabe que os tempos são outros, mas muitos não o mudam porque falam da boca para fora; "Toda" a gente trai, e quem não trai muitas vezes nem oportunidade tem para amar, porque esses sim, sabem o que é amor; Eu errei, eu menti, arrependi-me, esclareci, perdi, sonhei, iludi-me e não concretizei. O que é um poeta?

PS: E sei que vão surgir vozes que não corroboram o que eu disse.

Sê tu mesmo

A ironia é tão grande, como uma criança.
Quem acredita, acredita, e quem não acredita,
Há quem diga que devia acreditar.
Sê um todo, em toda a parte,
Sê enorme como o vento,
Sê forte e guarda segredo.
E se um dia olhares o mundo,
E vires essa vasta escuridão incrustada,
Sê a luz de ninguém,
O fardo que carregas,
O mundo que não é teu.
Sê um todo, em toda a parte.

Guardei(-te)

Guardei,
A vontade que tinha,
Vespertina,
Das noites que não tive,
Dos sonhos que não realizei,
Que sonhei.

Guardei,
A vitória que não atingi,
Desesperada, por vezes,
Desejoso do céu azulado,
Crivado em teu nome.
Hoje, feridas que aos outros
lhe servem as palavras do meu desconsolo.

Guardei,
As noites que não dormi,
E a cama que não partilhei,
E os beijos que não dei,
A verdade que não contei.

Guardei,
Na memória mais profunda,
As fotos que não tirei,
Os álbuns que não fiz,
Os mergulhos apaixonados que não dei.

Guardar-te-ia muito mais,
Se os tempos não fossem outros.

Na noite

Vitupérios foram, deixaram-te só,
Na noite,
E no hábito que permanecias insolente,
Nada era acudo, achariam-te insolvente,
Todos os medos que trazias,
Na noite mais fria da tua vida.

Vi-te de longe, com uma doçura tal,
Um olhar carregado de uma fraqueza insolúvel,
Na noite mais fria da tua vida,
E sem a mínima noção da irrealidade,
Achavas-te imprestável, inútil,
Morrias, mas de saudade.

O teu sangue, correu pelo teu corpo,
O bater tenaz da máquina que te move,
Confiança,
Mais depressa,
Confiança, confiança,
Ainda mais depressa,
Confiança, confiança, confiança.
Paraste.
E eu.

Surpreendido com essa súbita tez,
De pálida incolor,
A um rosado belo exemplar.
Parecias-me tão doce,
Tão como te habituaste a ouvir.
Passas por mim.
Vejo-te passar...
Mudo, irracional,transcendente e incapaz,
Trincavas a língua,
Olhar maroto,
("De onde vens assim?") - sonharia, sim,
Vejo-te longe.

Parou!

Eu olhava cabisbaixo, uma noite como as outras,
Vi um vulto e não liguei,
"-Olá!"
("Só a mim não me dizes olá. Um dia dir-te eu")

"-David?"

Acelerou, de súbito a força de mil cavalos bombeava cá dentro,
E sonhos passados vieram, a força de não desistir,
Imagens, e mais imagens na minha cabeça,
Cada vez mais rápido,
Rápido, rápido,rápido, rápido, rápido,
Ahhhhhhh
Olhei!

Aqueles olhos, aquela maneira tão característica, tão dela,
Não esqueço,
Lembrar-me-ei até ser dia, todos os dias,
E respondi-lhe.

"-Foste o único que me olhou de maneira especial"-disse-me
E fi-lo,
"-(...)na noite mais fria da minha vida"

Sou um sol

O sol que nasceu por cima das janelas fechadas,
Nasceu fora de si, longe de imaginar,
Que a estrela maior, cansada ficaria,
De tanto brilhar, brilhar, brilhar.

E se uma pessoa fosse, não seria uma estrela,
Não seria sequer famosa,
Seria um mar por descobrir,
Seria apenas uma miragem airosa.

E olhar para ela, fazer-lhe vénias,
Além da companhia habitual,
E ver aquele franzir de testa,
Aquele olhar triste sempre igual.

O sol hoje fui eu,
Minúsculo, microscópico, ninguém o viu,
E num grito de longe, chamam por mim,
"-Já vou!" e é sempre assim.

Quem não é, não é

Hoje acordei e vi escuro (...)

Recordarei que no dia anterior não fiz nada,
Comodismo extasiado em que me vi,
Porque não fazer, não é ser,
E quem não é,
Não sente.

E recuar ainda mais no tempo,
E ver, ouvir e tornar palpável,
Que os maiores eram loucos,
E eu quis ser, fui,
Senti, e sou.

Das palavras que não teci mas todos escutaram,
Que viram nelas parte de si, e se lembraram,
Que esta brincadeira, arte, de escrever,
É de quem parte para longe,
De onde veio,
E para tão perto de onde quis,
Foram,
E são, sentem.

Estou feliz comigo, e estou feliz em certos minutos,
E pensar que quem vive segundo a segundo,
Um minuto e já viveu demais,
E os anos que passam, passam mais depressa,
E se foram, e são, depressa delapidam
E não são jamais, e não sentem, e não vivem.

Não vou às comparações e acho o que demonstro,
Não vou as memória e construo um futuro,
Mas se for um neo-Pessoa, sou,
Se tiver um futuro melhor, terei,
Seja mérito, e seja com classe,
Que seja, sentindo, sou.

Eu olho para cada olhar, e cada gesto,
E vejo talento e uma obra por explorar,
E ver que quem não quer, não se pode esforçar,
Porque quem se atreve a ser o que não é,
Mente,
E ninguém gosta de gente mentirosa.

Tenho vagas de noções, e todos temos,
Que além disto, pouco ou nada haverá,
Quem explora, não desiste,
Quem gasta, gasta tudo,
E quem quer, espera,
E nisto quem sente?
Os que esperam, e não têm.

(....) era das janelas fechadas.

o mundo

Maior que um sonho, é ser nobre,
É ter humildade e saber estar,
Não são essas velhas manias de sonhar acordado,
Que fazem uma pessoa ser, e amar.

Por essas formas de ser criança,
E ouvi-las docemente como uma melodia,
É não saber como elas são,
É não ter noção dum sorriso seu que luzidia.

E ter orgulho e ser um desgraçado,
Que nem alegre fica com tão pouco,
E numa voz crítica que não interessa,
É ser-se banal e julgando-se louco.

E olhar-te numa ilusão constante,
Lembrar-me de ti até no mais profundo,
É não sentir-me sozinho,
É ser alguém no mundo.

Sonhei

Eu lembro-me de ter fechado os olhos,
E ao princípio como que no vago desconhecimento,
Não vi nada.
E na inconsciência, já perdido na noite,
Jorrou sobre mim um sentimento,
E sonhei com uma menina amada.
Lembro-me de a ver de longe,
E inconsciente, para mim era real,
"-Eu já a vi em algum lado"
Como se nada fosse,
Sentir, sentindo era fatal.
Acordei entre quatro paredes,
Conformado, já era dia,
E na preguiça aguda me levantei,
Entrei no banho, correu a água,
Fechei os olhos e já não sonhei.

Desconhecidos, faz parte

Um "oh esperança" na vasta ideia de te criar. Dentro de mim, como se fermentasse e crescesse, e fosse visível aos meus olhos um sorriso a rejuvenescer, e a entreter a consciência e o tempo de mais e não pudesse jamais parar. Sou o que os meus dias me disserem, e vou sendo o que dela se passar. Não posso andar por aí feito vagabundo e música sem letra à espera de enganar (?!) com a minha esporádica pseudo-neo-felicidade, ou simplesmente cair em mim e achar-me no mais profundo do ridículo. Eu olho-me ao espelho e vejo esse "oh esperança" reflectido instintivamente na cor que desabalroa no verde claro e no azul-céu e preenche o momento de algo tão perfeito e tão próprio que julgo não ter melhor companhia que eu próprio (e assim fechei-me em copas por dez segundos). E olhar-te tão docemente e encontrar uma paz de alma e um aprazer em tudo o que faço é tecer na minha tez um brilho como os meus olhos, e soltar um suspiro, um "oh alegria", piscar-te o olho da maneira mais sentida e sentir-te em cada passo que dou.

Um título a quem lho der

Há pessoas que nos marcam, e nos sufocam,
E de tanto as pensarmos que não somos nada,
E o tempo não parou no instante certo,
Perdi e perdemos esta vaga.

Sinto que as hipóteses existem,
E diluem-se por entre os dedos,
E num bater inesperado de cabeça contra a parede,
Sai lascada a história recheada de medos.

E perdemos o norte e a meia consciência,
Calçamos luvas neste tempo de calor,
E esse turbilhão que nascia cá dentro,
Morria longe, numa gota de suor.

Pessoas erradas, momentos errados, vidas erradas,
Lamentos infortuítos quem não os tem?
E não chegava a moral de lhe dizer: "a vida continua",
Que não ter alegria, não ter vida, não ter ninguém.

Nem sei o que as palavras possam-me dizer,
Neste dia de "amanhã",
As horas com um sorriso lacrimado,
Olhavam para mim e diziam: "A vida é como um divã".

Díficil

É difícil espelhar com os olhos toda a celeridade da vida à nossa frente. É-me e é-nos impossível distinguir num certo momento, quase diria instantâneo, tudo o que vemos ou sentimos. Às vezes tinha medo do que os sonhos escondiam por trás e das falsas partidas que provocava. Tinha medo porque me deram essa condição como se, e porque em parte sou e somos, uns robôs se tratassem e lhes davam aquele circuito minucioso. E que tudo o que mandavam, faziam. E nem é preciso olhar para trás e defender o passado, e muito menos defender a dignidade daquilo que lhe chamamos humanidade. Somos feitos assim, e não seremos mais nem menos só porque a rotina é feita de processos lentos e complicados, só porque há "os outros" que se julgam a si próprios, porque há quem se ache ter a mais o que outros têm a menos, porque a vida para uns é injusta e outros é desafogada demais. Não há neste mundo nem noutros que não surjam as imperfeições e coisas mal dadas. Há que ter noção que cada melancolia é uma história mal contada, é um animal que não se lava nunca e que cheira mal. Há que pertencer de uma vez por todas aos comum dos mortais e tentar decentemente arranjar lugar nesta tão desesperada e insensata sociedade. Difícil é fazer o que nunca se pensou fazer, tudo o resto faz-se, e de preferência a sorrir.