São meras recordações

Ninguém passa ao lado do que já foi. Eu sei o que vão dizer: é passado. Não preciso revirar baús e deitar fora gavetas cheias de recordações, basta olhar e colocar amuletos em tudo o que é parede e espaço por preencher. E os sorrisos que nos deixavam atónicos com pensamentos esdrúxulos a palrar em tudo o que era elogios cruzados mas que há momentos curtos que só nos serve a moral pelo pouco espaço tempo de acontecer. Foi há muitos anos, Inês, primeira classe em 1996. Recordo-me por ter sido a primeira colega de carteira e a primeira que me lançou um sorriso que o gravei até hoje. Empurrava-me a cadeira, e eu a dela. Um período chegou para a ver desaparecer no horizonte rumo, creio, à Suíça. Com 6 anos, procurei-a inocentemente algures quase num claríssimo desespero. Perdia-a e perdi-me. Hoje ambos com a mesma idade, 19, talvez nos tenhamos cruzado na mesma rua sem nunca saber. E de ter noção que a vida dá tantas voltas, de saber ainda mais que há coisas que não deviam ir assim, que me dá gosto recordar, porque recordar é viver, e me dá gosto viver um bocadinho mais, na tentativa de que haja alguém que me empurre a cadeira novamente e sorria-a tão perfeitamente que não possa esquecer jamais.

Segue em frente!

Era difícil não é? Tudo se perdeu num mero instante e nunca demos por isso. Ouvi, algures, que para as princesas existirem tiveram que beijar muitos sapos e a surpresa ficou no saco para que nada fosse novidade e a perda, a inolvidável esperança infinda e lúcida deixasse de existir. É ver-te nesse estado assombroso como o tempo que te assolou e ver-te da pior e mais miserável maneira que tenho memória. Tive poucas, mas boas. Talvez as coisas fossem melhor assim e quem disse que não devia ter acontecido? Normal estas leis macabras da vida, mas nunca o foi de contornos diferentes. Sabes, muitas vezes pensava ir ao encontro das boas palavras mas é difícil "engatar" os outros com um positivismo necessário por saber que é difícil largar o que agora é mais que impossível esquecer. Olha, tenta lembrar-te do sol e da lua e dos momentos que passaste. Não é bom? Pelo menos vias baloiçar mais o teu corpo contra o vento e esquecias por instantes que também tu não escapas a nada que a mãe da natureza, que tão bem foi aclamada, (nos) provoca. Agora segue as pisadas se és de seguir exemplos, caso contrário, sê um como nunca foste.

(apeteceu-me escrever algo fictício, como sempre, e esta justificação surge no facto de que era demasiado sórdido que pudesse escrever algo assim quando a na verdade não aconteceu. Tem outras saídas, as que quem lê quiser.)

Racionalmente

Sabes o que é sentires-te diferente? É sentires que tens a mais e a menos, e muitas vezes sentes-te tão estranho e tão complexo que nada que seja racional é seguro, nem nada que seja seguro é aproveitado. E se porventura ligares ao facto de que a auto-estima está ligada a isto, então o problema jamais poderia ser sobre a diferenças de classes intra-pessoais (enquanto poeta que possa sentir, no campo das palavras também posso inventar). Às vezes gostava de crer muito mais e de aproveitar o tempo que também se dá por enganado, e não querendo julgar o que supostamente também tenho o direito de pensar, sou como sou e ninguém mo disse o contrário. Penso que a força interior que tenho, porque só essa me disse sempre respeito, é uma força demasiado contraditória. Há momentos que me tocam de uma maneira quase infalível, e há outros que me dou de uma maneira quase despreocupada, banalizando completamente a história que daí se poderia surgir. Igual a todos, igual a ninguém e ainda bem. E a minha opinião sobre o que me rodeia é quase um doce que desembrulho do papel cheio de bonecada, em que já se sabe o que é mas cabe a cada um provar.

Seguir!

São as musicas que além da natureza dão o som por dito à vida que nos acostumou. Às vezes era ilógico e estupidamente irracional, mas não desistia muito facilmente de ver muito do que pensava ser feito. E não, não era tentar ter uma capacidade invejável de objectivismo, mas antes uma noção estratégica do campo que me envolvia desde que sou gente. Se fosse feito de papelão, seria pela vida reciclado, não porque podia ser reversível, mas porque mesmo não permitindo...seria usado. É verdade, não posso julgar isso à luz dos velhos princípios da ética, já que nem sou dono da verdade nem me contento com as mentiras, e nisso há que haver rigidez. Ainda há pouco, num momento para o outro, senti que as coisas não estavam na linha que seguira entretanto, e mesmo pensando e insurgindo-me contra as falsas expectativas, segui a bússola e fui por outro caminho. Isto tudo porquê? Por mais estranho, indefinida e ignorante que seja isto tudo, vale a pena não esperar por outra oportunidade que poderá nunca surgir.

Efémero.

Sê tão forte que nem o vento te derrube,
Sê tu mesma,
E deixa que te flui na alma uma pureza que não há,
E deixa ser fé e tristeza,
Sinal de esperança.
E quando puderes olhar o Mundo com dois olhos,
Que não seja tarde demais,
E o Mundo teria mudado...

I CAN

Tenho mais que nos meus olhos,
Um olhar profundo que não engana,
Tenho gravado na memória o passado,
Que brota do coração, que em mim emana.
Há tantos exemplos de como ser herói,
Para quê enganar com o sofrimento se não sofremos,
E da porta para fora que tantas lágrimas correram,
É estúpido muitas vezes o que dizemos.
Eu choro e ninguém me tira isso,
A minha alma, que ninguém a tem, é enorme,
E porque caiu e volto a levantar-me,
Enquanto alguém no Mundo apenas come...e dorme.
Não mereci muita coisa se a pude ter,
E o trabalho que tive, teria de ser mais exigente,
E hoje luto, e quero ser herói,
Menino-Homem, gente.
E se porventura acharem que não são ninguém,
E nesse dia não houver a quem suspirar,
Levantem-se e caminhem...
Estarei lá eu para ouvir e para vos amar.

Um sorriso

A velocidade da luz não é a velocidade da ciência,
Nem a velocidade das pessoas,
Talvez a alegria de uns e a tristeza dos outros seja veloz,
Mas nada as contém até serem deitadas abaixo a uma velocidade ainda maior.
Não é triste nem melancólico o que possa dizer,
Não!
E crer que em cada estrada há memórias para guardar,
Em cada almofada um sonho para explorar,
E aqui estamos, muitas vezes esperançados em encontrar algo por fazer.
As palavras que magoam, suscitam lágrimas ou planos e ambientes descoloridos,
E aí há razões para relembrar o passado que não foi bom,
É negro pensar assim não é?
E no fim restará para os emotivos a pena e o arrependimento,
Para os outros, desprezo e insensatez.
Quem não sofreu do mesmo?
Que vida! Que Mundo! Que sina!
Talvez nessas viagens que faço aos túneis da amargura, e aos doces e ternos saberes das virtudes,
Talvez, sim, encontre pessoas que hoje procuram o que se esqueceram de querer no passado,
E talvez, porque nem nessas coisas posso estar certo, encontre gente com a mesma vontade de viver,
De quando perderam a cabeça para se tornarem pessoas realmente desprezáveis.
E hoje vou observar ainda mais, pensar ainda mais, e sorrir ainda mais,
Porque mesmo que não seja bonito um sorriso meu...


...alguém vai precisar dele.

Nada aconteceu

Nas loucas risadas de qualquer velho tirano,
Doses de boa sabedoria havia de aparecer,
E aprender um bocadinho do pouco que existe,
Não se pede mais, meus amigos, a não ser de comer.

Choravam arrependidos, na languidez sóbria,
Os velhos muros que nos separavam,
E alvos seríamos em tempos por coisa nenhuma,
Era assim que os outros pensavam.

Aqui estamos, na corcunda da nossa vida,
Olhando ao pouco tempo que aqui passámos,
Vejo nesses olhos uma tara perdida,
Nesse castigo solene que não beijámos.

Nem sei

O tempo é demasiado estreito para experimentar sensações diferentes só na ilusão perfeita de ver as melhores opções. Viver nos meios mais rotinados, mais habituados aos seus costumes e não ser um deles é quase um desafio crescente às nossas capacidades de improviso. Temo a sorte que muitas vezes me tapa a vista de outras coisas e distinguir o bem é tarefa que partiria, possivelmente, do nosso vasto conhecimento contemporâneo das leis da rua. Confesso que pouco vivi até hoje e guardar espaço para empreender mais é possível, mas é possível ser-se prematuro e feliz ao mesmo tempo? Não diria que não se o Mundo não fosse este. Não é a tristeza que me afasta o sentimento de revolta, porque nem revolta se trata, mas há dias que as coisas podiam ser diferentes, e a vontade de mudança fosse mais eficaz. Do cima destas serras, só vejo a minha humilde casa de onde muitas vezes não devia ter saído. Uma rajada de frio percorre-me a pele com violência e, de olhar taciturno, pego o Mundo com as duas mãos e guardo numa caixa.

Consciência vazia

Nas vagas ondas que ia rebentando, em todas elas havia uma prece para contar. Parecia contextual a minha presença e arriscava-me até a dizer que era necessário estar ali para as ouvir. Certamente tinham os seus desabafos – eu também os tinha. E era tão simples a capacidade de emanar nas suas entranhas uma calma aparente, uma paz de espírito que me permitia ter margem de manobra para encontrar resposta para tudo, gesticular com o vento e imaginar-me noutras virtudes que o futuro havia de me mostrar. Sou um amante da vida que facilmente me apaixonei. Não resisti ao seu encanto e bem lá no fundo, mesmo sabendo que nem sempre a vi desta maneira, sei bem que tinha tanto para dar...e para mostrar. Bem espero nessas paragens que se fazem não me arrepender do tempo que fui, e não ter a mea culpa por coisas tão impróprias, e se calhar tão aberrantes, que não as possa demover da minha (por vezes) consciência vazia. Por isso navego nas tonterias da minha cabeça e vou sorrindo como um perdido, talvez porque nos falta montar o circo psicológico e rir das palhaçadas que vamos revivendo em cada esquina que pousamos os pés. Não há regras sem excepções e não há maré que cheia, não vaze.

Exemplo

Não é certo os que são duros para viver do que os que se matam para sobreviver, e nesta terriolazinha, confinada ao degredo total, são poucos os bons e mesmo esses são maltratados. Não há petições para acabar com o mal, ou promover o bem, e muito menos há quem conceda uma mudança que derrube as barreiras que até então têm estado muito acima dos simples sonhos de alguém as deitar abaixo, mas nada foi feito até hoje. Existem exemplos que percorrem-nos a alma da comoção e nos fazem pregar a vida ao próprio chão. Fazem-nos ver que o tempo tão mal passado no planeta muitas vezes não nos serviu a verdade absoluta das coisas e a pensar que em tanta ideia tivemos (e continuamos) sempre errados, por pura cultura tísica, atrofiada de quem nunca saiu do sistema e viveu um completamente aparte. Salvem-nos a alma do precipício, e o coração da desgraça infinita, porque por mais maldade e estupidez que haja no Mundo...há exemplos que teremos de seguir a cada passo que damos.

Uma coisa de cada vez

Na efemeridade de cada momento, vamos sendo um ser de cada vez, e mais distantes em tudo o que somos. Esse distanciamento, quase que roda da desvirtude, é uma falta de bom-senso que a idade nos faz sentir e que vai desaparecendo. Não, não é a idade que temos que essa ainda é tão pobre e vazia mas aquela que derruba a barreira entre os anos que foram e os anos que são na verdade. Nestas coisas de escrever com a alma faz-nos largar a bagagem toda, tropeçar no tempo e esperar o resultado que há tanto, sem pensarmos muito, já sabíamos, já que na vida existem dois estereótipos do mesmo sentimento: os que sentem e os que não sentem, e por aí, não sabendo tão bem que já valia a pena ter vivido e sendo fáceis, somos ainda mais para complicar e desentender o que seria supostamente certo ou o mais correcto. Por isso fico-me onde estou, em mais uma caminhada entre o cauda do desnorte e a ponta da esperança, que caracteriza os dias que mesmo mal vividos, resistirão à sua irreversibilidade.

Sou o que puder ser

Esta mania das primaveras perdidas,
Fui abastado da vida,
E nas ruas que se cruzavam, dormitavam nuas,
No laranja sombrio da luz nas calçadas,
Vagueavam medrosas como as luas.

Senti descarregadas as forças,
Forças de expressão que ninguém sente,
E vem, como enxurradas, à sina da ribalta,
Os lampejos da orla do dia,
Sucedido sejas se na vida vais alta.

É um carisma que fica,
E nessas conversas que se ouvem, aprende-se,
Que as notícias que correm, precedentes,
Depressa se sentem,
E abrem feridas entre as gentes.

E esse ouro que falta, e causa a separação,
Prematuros são os que intentam desaparecer,
E se algum dia melhorar os ventos,
Que melhore as pessoas,
E os seus sentimentos.

E se, porventura, eu for mais alto,
Que ninguém siga as minhas passadas,
Porque dentro de mim, o poeta que me fiz,
Só as letras posso sentir,
E todos têm oportunidade de ser feliz.

Sorriso escondido

Nesse fugaz silêncio fluorescente vindo do nada, e sentado na ombreira da porta lendo calmamente o meu jornal, sentia de fundo a brisa tocar-me suavemente a pele, dando-me a ideia de que a temperatura baixara entretanto. Lia e relia, na tentativa de ver o tempo passar e nada de novo acontecera - tudo parecia normal na velhíssima capital do sensacionalismo e da pura e sangrenta estupidez. Muitas vezes dava por mim a pensar no amanhã sem sequer ter noção do que isso seria ou do que pudesse acontecer, mas a verdade nisto tudo é achar que onde se ouve um apitar de um carro, um acidente ou um simples arrombar de portas, tudo passou para o lado da normalidade, e as pessoas também. Não acredito em mundos perdidos, mas sim naqueles que não sabem o que aqui andam a fazer e por isso o combate mais eficaz às coisas é assumi-las como suas mesmo não tendo capacidade para as ter, e fora esse indubitável presságio, há que conter dentro de si que num olhar presente de quem amamos, há sempre uma palavra a ser dita e um gesto a ser escutado. Não era muito longe de onde eu estava, mas levantei-me, sorri e segui o meu caminho.

Existe, sobretudo

Prescrevi com o olhar toda a plateia à minha frente. O silêncio era morto e os olhares desnudos, virados do avesso contra os mais variados sítios que não os que eram importante admitir. E olhei, vagueei num gesto nato o olhar compenetrado dela, daquela meia-vida prestes a explodir para outros ares, outras galáxias porque aos olhos dos outros não me importo, mas aos meus é tudo o que eu quiser. Eu guardo no coração uma ponta descoberta do tanto que há a descobrir nos campos visionários da minha vida e as pessoas sabem-no, e eu também. Já não são as velhas passadas de outrora nem o suposto querer vencer que o supera, é preciso inovar e renovar mas sobretudo não perder o tino e a paixão que os seguem com sentimento os verdadeiros amigos da humanidade. Quem sabe que sou e me conhece, sabe que talvez tivesse muito mais a escrever e muito mais a pensar, porque a sensibilidade existe e usamo-la para criar estigmas à nossa volta, e porque a verdade existe e não há volta a dar. Ouvi hoje e com razão, que num mar de tormentos que é este, havia de haver alguém que usasse preservativo, mas na boca.