Dedicada

E no comboio que nunca entrei para te ver,
Que tanto passaste sem nunca vislumbrar,
Não era pelo comboio nem pelos dias sombrios,
Que me iria de ti lembrar.

Tens uma figura que deslumbra,
Que na calçada de todas as histórias do Mundo, soubeste ser diferente,
E por um dia vi-te na felicidade mais pura,
Chegou para guardar o momento para sempre.

E nem seria preciso confundir as palavras,
Nem olhar defronte para as memórias,
Porque o presente acontece e temos de viver,
E não nas lutas com armas irrisórias.

Se um dia deixares que aconteça,
Deixa que o vento possa correr,
Mas sei bem, porque o Amanhã nunca morre,
Que sendo assim, bem mereces viver.

Talvez

O que me faz realmente pensar é a importância e os devaneios que as pessoas e as suas ideias podem provocar. O mar nem seria tão revolto e nem as verdades tão duras, mas ambos coexistem no mesmo espaço, em tempos distintos para servirem de inspiração, ou melhor, para servirem de pano de fundo à natureza que cada um constrói com as próprias mãos. Estava hoje sentado no banco do costume, em tempos que já me habituaram, e tentei escutar o silêncio, definir as linhas do horizonte com outra precisão e pensar na beleza que as coisas más, ou as imagens menos vistosas podem trazer. Talvez lhe chamasse de "trabalho de campo" que tantas vezes na minha vida não fiz, ou porventura nem supus o que estivesse a fazer, tomando de inconsciência a ininterrupta e insípida maneira de ver tudo com outro sabor, outros olhos. Fui, entretanto, incomodado pelo barulho dos pássaros que iam preenchendo de cor o verde seco da relva, das árvores e do tom concomitante das paredes frias do espaço que habito fora do lar onde nasci. Não é a falta que permanece e nem sequer é, muitas vezes, saudade mas antes um descontrolo fugaz ao modelo que concebemos para demonstrar o que somos.

Uma lágrima que cai

Sentei-me, volátil, nas cadeiras do cinema,
Sozinho na sala fechei os olhos sem querer,
E acordei inundado no negro das mágoas perdidas,
Que olhei, cabisbaixo, sem nada dizer.

E quem nunca me vira chorar, fi-lo cedo demais,
E porque as emoções erram, a alma não perdoa,
Cansado da cabeça, as palavras não saiam,
Uma cidade a escurecer, esta de Lisboa.

Um dia, em mar bravo, dia agitado,
Li e reli nas páginas do diário que "Quem ama, tem medo de perder.",
Pois só não amam os que tanto prezam a vida,
Como aqueles que nada têm a temer.

E o cheiro que vais brotando,
Dessa maresia incomum em que te viste,
Ainda guardo de olhar lavado em lágrimas, no coração,
A última vez que me sorriste.

Conforta-me duramente,
Acordar de manhã e ver o mundo,
E num pedaço de sal que cai desamparado,
Surge-me um pensamento mais profundo.

E o estômago que anda às voltas,
Ansioso de relógio a baloiçar,
Peguei numa estrela que vagueava nua pelo céu,
Trouxe-a à terra para a beijar.

A simplicidade da vida

O dia acordou cansado. Não via nada senão o rodopiar constante das horas que despertavam para uma manhã frenética. Ninguém em casa, apenas o silêncio. Esse pobre e honesto silêncio que tanta companhia fez às horas que a madrugada não conseguiu dormir, e que despontou a atenção e concentração que tanto foi devido nas alturas certas. Foi importante e eu prezo imenso o silêncio. A rotina era isto, e daí era obrigatório não passar disto, porque nem o ribombar do comboio contra os carris fazia prever bom pronúncio ou uma certa curiosidade de bem-estar, "-Onde já ouvi esta história?". E o resto do dia, sem nada de novo para contar acabaria com as perguntas que tinham de ser feitas e as respostas por serem dadas. Um ritual, uma espécie de concentração de energia para poder arrumar o quanto antes as milhares e milhares de pequenas pontas sucintas de dúvidas que se vão explodindo, como estrelas-novas, dentro da minha cabeça. E uma dessas questões tive eu de a responder: "-Quem não vive porque não quer, simples, não quer viver."

Boa noite

Na vasta visão que dos teus olhos vêm o mundo,
E da tua boca quando saem as palavras correctas,
Jamais te afirmarei que o tempo parou no tempo,
Ou se nas respostas, acertas.

Foi um adeus prematuro, e os ventos correram com o sofrimento,
Eu antes dizia-te que eras futuro, e hoje não passas da memória,
Porque viver à custa do sol, magoa,
E viver nas tuas costas, inglória.

Pega no comando da televisão e liga em qualquer canal,
Lá fora o vento não passou, outras coisas vieram,
E não penses que, por mais virtuosa que seja a tua alma,
Não foi isso que me disseram.

Ajudar-te-ia nesta longa caminhada,
Se não estivesse atrasado para trabalhar,
Larguei uma geração preciosa dos meus tempos,
A conquistar emoções para um dia eu recordar.

Antes eras eu, juntos éramos nós,
Ninguém diria mais nada senão desalmadas de espanto,
Hoje desejo-te uma boa noite estrela,
Para que um dia não te volte a encontrar naquele triste e moroso pranto.

Poetas

Nessa tua pose, poeta, vejo-te sentado,
Pessoas passam, e pelo gosto, voltam,
E não é o sorriso que te elogia,
Muito menos a obra que hoje és, encantado,
Mas sobre ti dormem, e pensam.

E o rio que doce fora outrora,
E nas velhas e sábias palavras soubeste tão bem contar,
Encostado à enervante colina das tuas histórias,
E que a tua amada Aurora,
Hoje o seja, embora sem vida, o teu motivo de saborear.

E esse vento amaldiçoado de Verão,
Que na tua mística segura foi pousar,
Criaste o mito, o pensamento e a justiça nas coisas,
Que embora a tua letra esteja crivada no coração,
Sei bem que tinhas muito mais a sonhar.

E acredita, meu amigo, que nestas coisas de poeta,
O que há a mais na vida é viver de maneira igual,
Porque se alguém se intrometer a estragar a cultura,
Que tu e eu fizemos girar como uma roleta,
Lembra-te que pelo menos um dia fomos o futuro de Portugal.

Deixa

Desaperta as emoções que querem brotar da tua alma, e afoga-as nas páginas virtuais da tua sempre incontornável história da tua vida. Deixa sair uma voz, mesmo esganiçada, das tuas preocupações e devaneios suicidas ou aristocratas, sem nunca teres dado conta do peso que tem para ti a liberdade. Deixa que nada te procure rebaixada perante o grito, a cor, a luz e sobretudo a respiração ofegante que te corre pelos ouvidos como zumbidos e deixa cair as lágrimas e as roupas que jamais te servem por te ficarem apertadas. Deixa que os sonhos sejam realidades do teu desconhecido e que o teu coração prenda num abraço a vida que tens pela frente. Deixa que o rancor, a inveja e a incerteza sejam o lixo da tua inconsciência para quando te fartares estejas consciente de que pelos anos que tens pela frente, já perdeste uma viagem que se pedia no mínimo...imperdível.

Normal

É tudo ligeiro no sentir mas sente-se e ninguém passa ao lado disso. Muitas vezes é uma questão de orgulho que se vão fazendo as coisas, com o mesmo prazer que uma criança tem só para ter no fim o seu brinquedo. E o tempo e esta mania que se tem de se esconder a verdade das pessoas só para confortá-las? Não quero suspeitar das virtudes que pouco se inventam por aí e a descrença nas primaveras que com a dificuldade se passam, com um olhar encaixado nas boas vontades, se força houver para as ter, mas falta mudanças e pessoas que o sejam na verdade. Porque mesmo que a história voltasse atrás e o vento corresse de feição só a novidade era digna de contar.

Um momento

Esvoaçam levemente por entre a palma da minha mão,
Veludo ou seda, sinto-as com delicadeza,
Parece as velhas pequenas cócegas que nesta epiderme se sente,
Um sorriso de olhos fechados, um momento bonito concerteza.

Toco veemente, nesta calma louca de desejar,
À tona da água um objecto perdido,
Eram as folhas da alma por alguém arrancadas,
Guardarei como se por mim fosse sentido.

Ganhei outros estigmas, há por momentos que vencer,
Olhar em qualquer direcção e ver luz,
É da estratégia que é feito o maior génio,
Que nas maiores loucuras reluz.