Preciso

Aqui ficam as marcas pesarosas,
Que na vida vou deixando,
E lá fora de cara lavada,
Sou outro, melhor, com outro encanto.

Aqui deixo postulado,
Veia de artista, numa cultura sem precedentes,
E na verdade sou feito das carências,
Que a ter, disto me ria entredentes.

Perder o quer que seja,
Errar no ponto sem poder,
Não me contento com os actos que,
Me deixam sóbrio, sonhos que foram prestes a morrer.

E no dia a seguir, quando abrimos novamente o coração,
Novas vêem, novamente nos admiramos,
E agora sim, perdeste de vez,
O que tanto me custou pensar, todos nós pensamos.

Não levo tanta coisa a brincar,
Com experiência da seriedade que fui adquirindo,
E num Mundo de loucos, sem corpo para aguentar,
Vou ouvindo de fundo, os outros rindo.

Preciso do tempo para aprender,
Mas sobretudo dos objectos para absorver,
Senão arrisco-me a nunca saber,
O que da vida realmente posso ter.


Dezanove anos, e nunca encontrei amor-próprio. Desespero.

Não há!

Não há mea culpa quando se define uma linha de papel e esquadro, projectada  para albergar as ideias que se vão tendo, e os tempos que vão passando. E não há razões que no papel sejam erros ou mesmo coisas mal feitas. Há pessoas irreconhecíveis, momentos estranhos e sentimentos que escapam à maioria daqueles que nos depositam o olhar e afazer naquilo que fazemos. Há também vontades que ficam por ser e estratégias que nem o são, e mais do que isso é admitirmos que isso sempre foi verdade. Não há espaço para os melhores amigos se um deles erra, e a memória muitas vezes nem o absolve dessa penitência. Não há carisma, não há saber nem consciência que para além dos livros e da constante maneira de pensar positivo, haja sentido de humor e vontade de viver. Mesmo assim, teria de haver o momento certo, o exacto lugar à hora marcada o melhor momento para dizer a verdade? Eu não escreveria se não o sentisse, porque se me dizem poeta quando escrevo, seria muito mais pelas que concebo, e não há na vida, contada ao segundo, que saiba que quando o faz...fá-lo pela certa.

Quando se é pequeno

Tapei os ouvidos aos gritos com medo de me assustar. Não era ninguém, e ninguém havia para acudir. Pedi misericórdia, fui rejeitado como quem rejeita uma criança do seu presumível doce ou brinquedo por estrear. Quis arriscar, da mesma maneira que arrisquei toda a vida sem saber e olhei para cima (sim, eram grandes demais para a minha estatura) e tropecei neles. Fui cuspido por um, fui quase arrancado à força do berço da vida por outro, mas não havia sombras ou vultos, muito menos alma...apenas o sustenido das vozes que as pessoas que à minha volta, abismadas com a minha presença infortuita e assustada, riam-se sem ouvir nada. Tapei a cabeça com os braços.

Senti o toque suave de uma mão.

Era a minha mãe.

Qual o valor da felicidade?

A felicidade paga-se caro e hoje em dia, numa crise que abala mundos e fundos, é mais que água...um verdadeiro diamante da natureza. Por vezes até podemos ter consciência da maneira ignorante com que defendemos o nosso auto-sofrimento. Sim, e até sabemos até que ponto o nosso contentamento é atingido. Mas falta ser feliz e porque é um produto da nossa consciência que envolve os nossos costumes, ela mata-nos de tanto pensarmos e de moermos a nossa virtude contra os céus em jeito de prece. Para os outros, haverá sempre "os outros" que sofrem mais que nós próprios e para "nós" haverá sempre os "outros" que estão melhor, sem a desculpa esfarrapada de que não conseguimos suster esta vontade de crescer um bocadinho e deixar de lado o poder metafísico desta felicidade virgem. Custará sempre perceber o real valor do nosso coração.

Um poema de mangas arregaçadas

Bebo da tua virtude, cheiro-te,
Nesse rosa púrpura dos teus sonhos,
E nos bolsos tragos os desejos,
Concretizo sim, nada enfadonhos.

Cada passada, a confiança aumenta,
Tempo perdido, achei-o amarrotado no chão,
Apanho-o com a mesma delicadez que fui,
Sou e sinto com o coração.

Espreito as horas por entre a manga rasgada,
E esqueci-me do que vira,
Que o sol se ponha e eu sinta as horas partirem,
E poder admirar o que ela sentira.

Guardei solenemente, a noite que testemunhe,
O papel que apanhei faz tempo,
Reli uma última vez para que não esquecesse,
Passou por mim uma brisa, um segredo do vento.

Vazio

Observo-te, e vejo o que perdi,
Velhas calçadas que pisas, jamais te verei,
E o tempo que passas, não passarei,
Triste fico, e sempre ficarei.

Não escondo a mágoa, muito menos o saber,
Que no lugar duma diva, não cabem duas,
E por saber demais que giramos em torno da maior estrela,
Não giro em ti, apenas se tornam luas.

Rejeitarei o pecado, volta e meia aparece,
Pedia sorrisos e abraços ternos, nada mais,
Vejo-me em mim só, e vazio,
Deixo estar o sentimento, hoje somos todos iguais.

Nada

Quase seria, se fosse e quase éramos se acontesse. Se não houvesse travões, quase inúteis seriam as estradas porque não haveria carros. Nestas coisas de contra-tempos e voltas sem retorno que por vezes vamos tendo, são quase o martírio da alma se já tivéssemos desistido. E a música que nos envolve nos braços, e a adrenalina dum jogo e a fugaz bonança da esperança num rio de sonhos por concretizar, e subir do Rossio ao Chiado e sentir o fado, o espírito, a vida a correr-lhe num segundo longínquo do seu olhar. Eu se não fizesse nada, e me deleitasse ao ócio da minha geração, quase de certeza que não estava aqui por saber que o quase... é nada.

Quase.

Tremo entre lágrimas nesta emoção infinda. Algo, sujeito e suspeito que ficou para trás me comove, mas sobretudo me faz levantar a atenção e o suspiro contra os céus. Sinto-me numa avalanche que só tem o motivo de arrependimento de se lançar e derrubar o Mundo com total latência, nada ilustrativo. As imagens que se foram seguindo, vi-as eu com uma força desmesurada, e quase nos meus 19 completos anos de vida, só poderei olhar para baixo e ver os degraus e as pessoas que ao longo da minha vida fizeram parte dos meus sonhos, dos meus passos tornando-se fasquia mais que elevada para aquilo que considero um tesouro a conservar. Desculpem-me as lágrimas como relâmpagos que ninguém espera.

Até lá há vida

O mar revoltoso neste barco parado,
Altos e baixos, de mastro ao alto sem velas pendentes,
E quando a vida passa, tempos correndo,
O que não vivemos, facilmente falamos entredentes.

Mas o que custa aceitar, em mil porquês,
Neste frio, nestas paredes, neste Mundo,
Que as árvores quando se movem são natureza,
E as pessoas, mera tristeza.

Orgulhosas maneiras de aqui dizer,
Que o importante, além de tecer,
É das palavras reter.

E que nalguma vida, nalguma geração,
A vida só o é e deixa de ser,
Quando parar o coração.