Olhar permanente sobre as coisas

Naqueles olhos cor do mar, serpenteiam,
As minhas ideias desagregadas,
E enquanto vazio observo admirado,
Quantas vozes sem falar aladas.

No branco do papel, água morna da minha vida,
É das letras e dos dias que vou vivendo,
Não esqueço, infinitas vezes que,
Como gosto de te ir absorvendo.

Quem duvida de bons sentimentos,
Não só não sabe o que é sentir,
Quantos passos se tornam em falsos movimentos.

E de todas as formas de vida, de viver,
Enquanto tiver a noção de tudo o que é,
Para quê deixar de ser?

Um pouco de tudo

É no branco dos azulejos, cismado,
Sombras ocultas do cinzento enublado,
Chove mil águas, escorrendo,
Afunilado sejas mal-amado.

O chilrear nervoso dos pássaros, de longe,
Presenças imprevisíveis vagueiam despreocupadas,
E a barulhenta água que vou vendo nua,
Encontram terras húmidas dilaceradas.

A quietude nula observada,
Chuva que cai e não molha,
Intensidade que muda, cada vez menos amada.

Vou repensando nas folhas que leio,
O futuro é como a água:
Precioso, creio.

Nem tudo é suficiente.

As coisas duram, com tempo definido,
E ninguém saber, já é vencer,
Porque nas ruas a Pátria morre orgulhosa,
Não somos de ninguém, até ver.

Quem esconde a magia da história,
Finou-se antes do tempo,
Foram embora as folhas de Outono e o mar bravio,
Foi embora a saudade com o vento.

Quão palavreado sairia profundo,
Das bocas sãs mudas do medo,
Séculos vêem, séculos passam,
Isto é o verdadeiro degredo.

Em cada letra e palavra dita,
Em cada segundo, hora passada,
A vida pode ser uma constante luta,
Mas só marca quem remata.

Palavras

"Olha morreu!..."

"É a vida."

Parece que nada escapa à natureza humana, a psicologia de tudo o que nos conforta. Muitas vezes são as palavras donas dos maiores conflitos, dos melhores e piores gestos e nem todos escolhem as palavras certas. Habituar-nos à vasta ideia de que tudo reside nas opções, e que em tudo na vida nem sempre é o mais acertado.

Shiuuu

O silêncio é aterrador. Diz tanto em tão pouco e não é feito de facilidades, não é interpretável assim do nada - é preciso aprender. É preciso crescer dentro dele, amá-lo, ser fiel para descobri-lo no seu íntimo. Quem nunca viveu no silêncio, não viveu o suficiente para o fazer.

Recomeçar...

Vamos imprimindo à nossa vida um tanto de cada coisa. Não há demonstrações nas horas erradas, não há guiões quando pensamos que devíamos ter um. É natural, da mesma maneira que toda a vida animal e vegetal o é...mas não na mentalidade, na obscuridade do nosso ser. Ninguém vê os gestos que não temos e por isso é difícil imaginar a inimaginável conta aos tipos, subtipos,e às meramente desconhecidas formas de humanidade que vamos testemunhando lado-a-lado em qualquer esquina até nos lugares mais recônditos do planeta. O diferente encanta, rejuvenesce, e austera a oportunidade de criarmos uma nova, nas incontáveis formas de conhecimento, capacidade de construir identidades, noções tão básicas porque teremos sempre de começar por algum lado. Só queria que houvesse pessoas normais, vidas normais, coisas normais, porque pensando bem nada é desfeito sem ser pelas mãos do Homem que "tudo" criou. Temos o mau hábito de complicar tudo, do orgulho e da derrota e mudar é tarefa humanamente complexa, por isso tudo é mental e fechado entre copas. Talvez fosse melhor acabar tudo e recomeçar novamente...

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E agora vou conhecendo aos poucos de onde realmente vim. Nas folhas já quase imperceptíveis vou encontrando aqueles factos, aquelas últimas peças que encaixam, bem pensado, de uma maneira perfeita. E é olhar para elas, as memórias, e ver que sei tão pouco ou quase nada do que fui feito ou porque fui feito. Apetece-me sair à rua e desligar-me até de mim mesmo, poder dormir sobre os assuntos e resolvê-los de seguida. Agora vejo a fachada que era o meu mundo, que pensava eu ser construído à minha maneira. Não há palavras, não há sentimentos, além daqueles que não poderei sequer escrever por serem tão miseráveis, tão abaixo de qualquer palmo de terra, debaixo do chão que piso. Nem a escrever tenho consciência se ficou esteticamente agradável ou muito menos "agradável" de se ler. Nada interessa, nada!

Caíram

Brotam neste rosto amargo, as lágrimas que há muito não saíam. É bom, talvez muito bom que elas possam de vez em quando sair para desanuviar a tensão que dentro se vai sentindo. Não é preciso ser-se triste ou sobretudo ter olhos vazios para se chorar, basta fazê-lo e nalgumas vezes sem razão aparente. Liberta tudo, e dá descanso ao coração por momentos. É viver uns segundos com a mesma força com que um verdadeiro magnata das guerras a tem, e poder no fim deitar-se no leito, junto àquelas árvores de fruto, verdíssimas de primavera e dormir, dormir como se daí em diante nada mais houvesse com que se preocupar. Chorar faz bem, e como na vida tudo resulta com a medida certa.

Nudez das palavras

É ouvir na sala ao lado, impávido, os gritos numa sinfonia com raiva, a puxar os dedos nas cordas com penitência de quem, com a sua injustiça, fez por mal ao Mundo que o viu nascer. Sereno, calmíssimo, vamos passando ao lado de toda aquela história muda, sem música de fundo, sem os horrores de uma nota mal tocada. É ter consciência que num lugar não cabem dois.

Tranquilidade


Não seria demais admitir que também temos sorrisos sinceros. Que naquelas contra-curvas da vida encontramos sempre algo com que passar o tempo da melhor maneira. Difícil seria concordar com o que somos, se de inconstante fomos, ou afinal de contas nunca tínhamos vivido o suficiente para nos acreditarmos das nossas reais possibilidades. Era subir os degraus com o mesmo vigor com que uma criança as desce, porque nem tudo é físico nem as coisas que se sentem, químicas. Por vezes são as linguagens do Homem que fazem arrombar as portas da virtude, e deixar entrar a quem pedir uma verdadeira lição de simplicidade, de humanismo e de esperança. Vale a pena discutir desinteressadamente as dissimulações da vida? Se a vida tiver greves...não contem comigo.

Por partes


Nessa infeliz de procriar ideias, nada me saiu. Não me contive nesta ira de pensamentos a meio termo, de palavras por dizer, de frases incompletas. Sei, claro, que o Mundo vive desta cumplicidade, desta simplicidade, tal e qual a chuva que cai sobre nós nem sempre vem nos tempos frios.

Prémio

A Vanessa (http://vrvcsf.blogspot.com/) entregou-me esta pequena lembrança, do qual com todo o orgulho lhe agradeço.

“Com o Prémio Dardos reconhecem-se os valores que cada blogueiro emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram a sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre as suas letras, entre as suas palavras. Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiros, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.”

As regras são as seguintes:
1) Exibir a imagem do selo;
2) Linkar o blogue através qual você recebeu a indicação;
3) Escolher 15 outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos.

Os ditos estão aí no lado...

Infernal


São fragmentos que fazem parte de mim. Um pedaço por cada canto que passei, sem mágoa do que deixei ser, mas sobretudo virtuosa pelo que almejei alcançar. Nesse encanto escondido entre as nuvens, nessa imagem de um preto e de um branco que não destoam a margem para as dúvidas latentes dos que têm olhos para ver. É nocivo e desesperante os tempos que vão andando a passo apressado e sem que para isso haja alguma alma, gente por aí com vontade de a fazer diferente daquilo que a deixaram ser. Estamos no bom caminho para o inferno - diria talvez o diabo.

Humanos

São de linhas cruzadas, o horizonte de edifícios,
Janelas de roupa estendida, cheiro a flores,
E o vento que gelado se sente,
Levanta poeira, sentimentos e odores.

As árvores cobiçadas, meia-idade descabida,
Intento na estrada e fumo dos automóveis,
Parece mecânica até no pensar,
Que realidade é esta, aonde vou parar?

Estudantes, Engenheiros, o povo escuta,
Novas vindas dos que pensam mandar,
Já de ouvidos mudos e voz calada, alguém levanta o braço,
"- As minhas vitórias sou eu que as vou conquistar".

E não pensem na demandada, somos Homens,
Errar na virtude, não é errar,
Porque tudo isto é noção de aprender,
Mas sobretudo, paixão de sonhar.

Só vive quem quer

Pousei a palma da minha mão sobre a face esquerda e apreciei quem via. Via tudo menos o que me mostravam...sempre fui assim. Às vezes pediam-me para ser mais sensato e prescrever apenas o essencial e eu lá passava por cima dessas coisas e virava do avesso todas essas complicações, deduções, lógicas - devaneios da alma, dizia eu - e assim fui sendo observado. Não esperava que acontecesse, não, não era próprio de mim que pudesse ser o alvo e às vezes a própria seta, mas não evitei (devia?). Vi que tudo tomava rumos estranhos, nublados, e as resoluções era meras distâncias sucessivas, concretas ou abstractas, e foi nascendo em mim essa maneira doce e subtil de ver o Mundo com olhos meigos cor verde de primavera. Nasceu muito mais do que esperava, e as datas que se foram passando, todas elas registei e registo num olhar presunçoso, intimidante. E tanta vez que me debrucei nas minhas teorias do "Só vive quem quer".

Sem destinatário

Nessa tua predominância nas velhas sinas escritas em livros forrados de papel morno, em tempos frios, muito distantes, sei que foste assim. O que me apraz nestes prazeres todos que me mostram como estante de alguma livraria é saber que posso contar com eles, e poder admitir, cada qual com a sua história, que cada um existe de uma maneira diferente, incomum aos poucos que a vêem com um olhar verdadeiro, um olhar brilhante, porém, um olhar com características que poucos merecem ter, e tu tiveste, e tu tens. E é nessa vontade que caminhando, vejo a vida passar num sopro, instruindo os passos para os melhores caminhos, e sabes com quem aprendi? Com esta minha força de viver. Se tivesse destinatário todas as minhas palavras, talvez porque um talvez demonstra gratidão, seriam diferentes, muito diferentes.